Mademoiselle

Sete mulheres encontravam-se na varanda de uma casa branca de madeira. Uma delas disse: “Silêncio, tenho uma coisa a anunciar!”.

Silêncio.

“O que foi?”, perguntou Madame. Madame era feia que só vendo, não sabia cantar e quase nem respirar. Tinha pinta na orelha e cintura de camelo. Mas era filha do pastor da vila – o dono da coisa toda – então era muito cortejada e havia diversos pretendentes correndo atrás de si.

Madame havia nascido prematura. Quando sua mãe deu à luz, não sabia se quem vinha era homem ou mulher, e por isso não sabia nem o nome. O pai queria mulher.

“A partir de hoje, vou virar selvagem!”, respondeu Syrlêi.

“Selvagem como uma noite de super lua.

Vou destruir minhas amarras ao passado, minha pose de boa-moça. Na escola, aprendi com meus pais que é importante ser educada e agradar o moço, usar o guardanapo no colo, cumprimentar quem eu não quero e não ouvir conversa de adulto.

Mas a vida… qual é o sentido? Se não tem nada lá fora, a quem eu estou tentando agradar além de eu mesma?

Será que é educado ser educada, ou será que o educado é falar o que pensa? Ser autêntica. Concordar pra agradar ou concordar em discordar?

Por quê será que nos é (mal) educado que ser educada é o educado?

A partir de hoje, vou virar selvagem.”

Shivete não gostou do que ouviu e achou que a moça tinha ficado é louca. Levantou-se do tapete de palha estendido no chão e pôs-se a gritar:

“Onde já se viu uma moça como você agora querer se rebelar! Tem tudo que deseja, o privilégio de vir de uma origem abastada, comida, água, roupa passada e vinho nos finais de semana até às 20h. Tem gajos que correm atrás e andam de joelhos à Marte para lhe fazer feliz. Ingrata! Ingrata!”

“Ingrata! Ingrata!”, gritou Shivane e Shufiane, enquanto Soymar e Soylar apoiavam a amiga cantando versos de chamamento à Feminidade.

O grupo encontrava-se divido em três mulheres para cada lado da discussão. A única que não havia se manifestado era Madame.

Após uns instantes, a filha do pastor pôs-se a suspirar. Entendia a selvageria de Syrlêi, mas vivia as crenças de Shivete. Em um mundo onde se aprende a ter o externo como referência, viver uma vida conforme nossos credos pessoais é um desafio que só os bravos se poem a encarar.

E encarar novos desafios significa estar disposto a se tornar uma nova pessoa. Romper com o conhecido do passado e se abrir para um futuro incerto, quebrar padrões de comportamento e pensamento e, muitas vezes, frustrar as expectativas sobre nós não-justamente postas por aqueles que nos cercam.

Eu acredito que ser selvagem significa ser mais de si mesmo. Significa não ser quem você está sendo para se tornar quem você realmente é, independente de gênero, idade ou etnia, sendo a intensidade de conexão e consciência que um possua com seu próprio ser o único fator limitante do nível de selvageria a ser vivenciado.

Madame nasceu aprendendo a não falar de boca cheia e sentar de coluna ereta, ir na missa todo domingo e guardar o sábado, em vez de engolir antes de falar e cuidar da postura, ir na missa quando tiver vontade e rezar como achar melhor. A moça se contentava com o mínimo e se sentia na obrigação de estar satisfeita com isso, sentindo a culpa de ser grata mesmo sentindo faltas.

“Ingrata!”, gritou Madame.

“Ingrata eu sou de não aceitar a selvageria que existe em mim e a pulsação que me leva a me tornar mais de eu mesma. Ingrata eu sou de não honrar aquilo que me faz ser única no mundo – a minha essência. Ingrata eu sou de não me agarrar à coragem que me instiga a deixar de ser só um corpo para se tornar um campo elétrico de vibrações, a deixar de ser Madame”.

Por fim, virando-se para Shivete, Shivane e Shufiane, gritou: “Ingratas!”.

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Foto: Ghent, Bélgica.

Piadinha de mau gosto

Rosas são vermelhas, violetas são azuis, hoje eu acordei, puta revoltuis.

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Não é todo dia que se acorda dançando pelo bosque em um dia ensolarado ao som de belos passarinhos, flutuando sob uma brisa leve matinal e com cheiro de café quentinho.

Tem dias que se acorda em um belo dia ensolarado com café quentinho passado, um passarinho ou outro cantando lá fora e uma brisa leve matinal – mas emputecida. Não se quer nem saber de dançar pela casa quem dirá pelo bosque. Parece que há um piano sendo carregado nas costas e não se acha força nem pra levantar o braço e pegar uma xícara sequer.

5 minutos sentado 5 minutos deitado. “Bora trabalhar” se resume à “bora scrollar” que se resume à “bora deitar e vegetar”

Forças obscuras do além fazem o favor de prestar uma visitinha na vizinhança da mente e ficar brincando de batata quente com a gente.

Ou será que a gente brinca de batata quente com nós mesmos?

O fato é que Mario acordou com vontade de socar o armário e sair gritando pela rua como se não houvesse amanhã.

Cansei, diz ele. Cansei dessa palhaçada chamada Mario. O autoboicote é real e ele tá ai, cai mesmo quem não quer.

O que será que dias emputecidos querem nos ensinar? Porque, assim, sabemos que não somos pessoas puta revolts. Em geral, gostamos – e muito – de dançar bosque à fora. Mas em dias como estes parece que nada faz sentido e só o que queremos é jogar tudo pro ar e sair correndo pra se encolher em um banco aleatório na baia de Hobart.

Mas agora, depois de -verdadeiramente- sentir toda essa revolta, eu tenho um palpite: piadinha de mau gosto. Neste caso, uma puta piadinha de mau gosto do universo. Tão grande que consigo imaginar perfeitamente esse cosmos rindo da minha cara, com a barriga doendo de tanto rir e ficando quase sem ar de tanta gargalhada.

“Só pra sentir o gostinho”, diz ele. “Mas ainda não”, conclui.

Puta piadinha de mau gosto, se eu te contar você nem vai acreditar.

Porém entretanto todavia e contudo, depois da tempestade sempre vem a calmaria. Bola pra frente, corre que da próxima vez é pra comer o prato todo em vez de ficar só na vontade.

Corre que lá trás vem gente, mas não esquece de desviar.

Se você, assim como eu, um dia já teve o claro sentimento de que o universo estava pregando uma peça com a sua pessoa e te fez se sentir protagonista de uma grande piadinha de mau gosto, saiba que… é nóis.

Mas saiba também que por traz de toda peça de teatro sempre tem uma narrativa, uma espécie de moral. Tente absorver toda a sabedoria que seu coraçãozinho aguentar, e aceite o fato de que o universo tem sim o poder de te colocar na posição de batata dentro do joguinho do quente. No fundo, é só uma didática alternativa de nos fazer maiores ainda e nos levar ao próximo nível de joguinho com mais, digamos assim… classe.

Mais experientes.

Não, não tente se vingar da jornada nem de ninguém a sua volta. Essa não é a mensagem. Assim, desatrelado ao sentimento de vingança, a mensagem que fica é:

um dia da caça, e outro do caçador.

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Foto: Estocolmo, Suécia.

Esconde-Esconde

Sentimentos escondidos,

Hoje eu me peguei pensando sobre sentimentos escondidos. Aqueles que moram nas profundezas do coração, nas águas mais turbulentas e difíceis de navegar.

É lá que ficam as memórias, sentimentos, e emoções que não quero pensar. Nem sentir, nem me emocionar. No dia-a-dia eu não sinto, nem choro, nem rio. Apenas esqueço e tento não lembrar.

Sentimentos escondidos. Como o tempo é relativo?

Dois flamingos caminhavam no deserto em busca de água. Depois da ninhada, o bando iniciou sua jornada em direção ao lago para alimentar seus filhotes. No meio do caminho, dois flamingos se conheceram. Um percebeu o outro no meio da multidão, e seus olhares se cruzaram. Foi o que bastou. Mil sentimentos floresceram

História turbulenta. Final feliz? E o tempo levou…

E o tempo passou. Sentimentos escondidos, de onde vem e porque se escondem? É proteção? Indiferença? Escrevi mil cartas e nenhuma delas me trouxe uma resposta,

Ah, essas emoções que se escondem. Eu daria tudo pra ter um momento de conversa e entender o que elas tem a dizer. Iria eu gostar? Me decepcionar? Ter a certeza que é o que parece ser?

Vamos dançar enquanto é tempo.

Tempo… será que dá tempo? Falta quanto tempo?

Se é que um dia vou ter um momento de conversa com o tempo. O que ele quer me dizer?

Já sei a resposta mas não quero ouvir. Vou fingir que é outra coisa e curtir o sentimento que essa imaginação me traz

Se não tenho vou fingir que tem

Sentimentos escondidos? Quais dos seus apareceram?

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Foto: Céu de Kalibo, Filipinas

Dois meses em solitária

Dia 15 de março de 2020. Estávamos há um dia do evento que havíamos preparado nos últimos meses, uma simulação de Comitês da ONU. Em paralelo, a escrita da tese de mestrado e um estágio em um escritório internacional já nomeado pro Prêmio Nobel da Paz.

Murmurinhos. “Será que a gente cancela?” / “Eu acho que não, não vai chegar aqui” / “Cancela sim, é mais garantido”. O dia seguinte amanheceu com uma mensagem da coordenadora dizendo que o evento havia sido cancelado. Adiado, até, sabe-se lá quando.

Primeiro dia de quarentena. Sozinha, em países de distância do meu país. O dia em que o Abre a Janela nasceu, primeiro dia de uma grande mudança. A felicidade em poder descansar, em criar um blog, respirar, acordar mais tarde.

Primeiro dia de quarentena. Primeiro dia do quasi-apocalipse, supermercado lotado, pessoas em frenesi. Estava agora proibido se encontrar com amigos, ficar em parques, correr na rua. A regra então era ficar sozinho.

Foram tempos loucos. No começo, não deu nem pra sentir a quarentena rolando. Dias se resumiam a escrever a tese, fazer o almoço, estagiar, correr, fazer a janta. Inclusive final de semana. A vida em um mundo paralelo e unapocalíptico.

Isolamento social? Foram dois meses de quarentena a sós, longe de qualquer ser vivo. Sozinha, eu tinha 19m² de hectare e uma varandinha inóspita no meio do frio neerlandês. Vivendo um sonho, eu nem enxergava os dias passarem. Não sentia a falta de nada, não queria falar com ninguém. Meu único objetivo era fazer o que eu tinha que fazer e não me deixar chegar a exaustão. Foi quasi-burnout.

Dois meses sem falar com ninguém pessoalmente. Sabe o que é isso?

Uma experiência maluca, uma oportunidade de crescimento e evolução. Não que eu recomenda, mas, se eu fosse médica, prescreveria.

Ter foco deixa a gente anestesiado. Mergulhei em um processo de estudo sobre desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, me joguei nas águas do meu oceano sem pressa pra voltar à superfície. Mesmo durante o burnout, o isolamento social trouxe uma paz mental jamais sentida antes. Não me senti sozinha em nenhum momento durante esse período.

Até sentir tudo de uma vez.

Ficar dois meses sem contato humano -nenhum- foi um processo destrutivo e construtivo ao mesmo tempo. Me levou a um estado de autossuficiência que me fez duvidar da necessidade de interação social. Eu me dei uma festa de aniversário em que eu fui a única convidada e foi uma das melhores festas que eu já fui, sério.

Sinto o impacto desse retiro espiritual moderno até hoje, e sei que ainda estou me recuperando. Procurando um equilíbrio entre o meu eu solitário e o meu eu social. Entre o meu impulso instintivo de mergulhar no meu mundo e minha resistência/vontade de sair pro universo social. É tão confortável aqui dentro, sabe. Zona de conforto?

Lembro da primeira vez que me reuni com amigos depois desses dois meses. Foi caótico e um pouco desesperador lidar com tanta energia diferente. De repente, eu não sabia mais estar em um ambiente barulhento e normal. Esse dia foi phoda.

Acho que hoje eu entendo quem resolve se demitir do emprego, jogar a família pro alto e correr pra um monastério nas montanhas do Himalaia. De certa forma, entendo o Aubrey Marcus ter ficado uma semana sozinho em um quarto escuro, ou o McConaughey ter cogitado virar monge.

Cada dose de solitude são 50ml de autoconhecimento. Cuidado para não beber muito, mas uma tacinha de vinho por dia não faz mal a ninguém. Quem consegue tomar a garrafa inteira de uma vez?

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Foto: Normandia, França.

Years and Years

Faz um tempo – anos – que eu não curto curtir o Instagram.

Para você que está lendo isso no futuro, quando eu já me tornei uma versão fake da Clarissa Pinkola Estés, Instagram é uma rede social muito usada durante os meus anos de juventude, aonde a galera posta(va) fotos de seus gatos e amigas com duck face e selfies de espelho na balada – também tem a clássica na academia, né?

Me lembro de ter começado a usar Instagram em 2011, no auge da minha adolescência. Era muito maneiro e divertido, mas de lá pra cá muita coisa mudou. Antes, os filtros do Insta eram péssimos e as fotos ficavam piores com do que sem. Era demais!

Hoje, é surreal a -perfeição- que o filtro deixa em uma foto.

Eu me odeio por usar Instagram e ainda não conseguir me libertar da rede. É um papo clichê esse, frase repetida por muita gente, mas é verdade.

Atualmente, meu feed deixou de ser um lugar para olhar fotos aleatórias e virou uma propaganda de televisão e plataforma de autoafirmação/autoimagem absurda. Parece que toda e qualquer publicação do meu mural é alguém, seja pessoa física ou jurídica, se promovendo ou divulgando seus serviços. Viramos escravos da ditadura Instagraniana.

De certa forma, escravos mesmo. Muitos queremos deixar de usar as redes, mas não conseguimos. Principalmente quem depende financeiramente da rede, há várias regrinhas para que uma publicação atinja um alto número de pessoas e se torne mais visível e conhecida. Não quero fazer uma analogia simplória à escravidão, mas é algo a ser pensado.

Pra mim, é triste. É triste ver, na prática, quão maior é o engajamento das pessoas em posts sem conteúdo algum. Como modinhas do Instagram são tão sem sentido. Por quê você iria querer se parecer com alguém?

Por que você iria se parecer com alguém que, de diferente, só muda o valor da conta bancária. E a quantidade de pessoas que (acham que) te conhecem.

Sinceramente, esse negócio de Instagram tá me cansando.

O mais louco dessa minha irritação é que daqui a pouco vou estar lá olhando meu feed do Instagram. Olhando vídeos desinteressantes de pessoas que não se tornaram tão interessantes ainda. Investindo o meu tempo em nada de valor. Muito provavelmente, também sendo uma pessoa desisteressante para outros, que vão olhar minhas postagens e pensar que eu não me tornei tão interessante assim.

E se daqui a pouco eu começar a usar o instagram pra me autopromover também? O Abre a Janela tem instagram – @abre.janela. Segue lá!

Esse post não tem nenhum objetivo a não ser um espaço para eu desabafar. Mas o objetivo desse post também é te fazer pensar.

Todos caímos na rede e agora somos peixes. Como acabar com a pesca predatória?

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Foto: Ilha Sul – Nova Zelândia

Diga “Xis”

É sobre dar tempo ao tempo. Nada além de paciência para esperar o tempo tomar o tempo necessário para agir, no seu tempo.

Imagine uma parede branca com pequenas fotos penduradas nela. Tem muitas fotos, com todos os tipos de cores e amores, bem pequenas, estilo Polaroid. Cada foto representa um acontecimento diferente na sua vida.

Sabe quando a gente decide escolher umas fotos pra revelar e botar em um álbum físico? Se imagine olhando e selecionando aquelas que mais te lembram bons momentos. Vai pegando as fotos com pessoas especiais, lugares que amou, dias perfeitos. Dá uma risada só de lembrar do dia que pintou o cabelo de roxo e fez uma tatuagem de picolé (uma não, várias) no braço (inteiro).

Experimenta deixar essas fotos em stand-by e revelá-las só no ano que vem. Você irá ficar chocado com a quantidade de fotos que deixará de lado, pois não parecem mais ser tão especiais assim. A vida mudou, a amizade com aquela bff acabou. “Nossa como eu era feia” – vou revelar pra quê?

Você mudou. Hoje, você está à algumas mudanças de atitute de distância daquele ser com cabelo justin bieber do passado.

Mas, o que mudou? A impressão que dá é que aquelas fotos já não fazem mais sentido. “Nessa foto eu estava passando por uma desilusão amorosa, e lembro que foi um período difícil pra mim. Por que revelar?”

Imagine uma parede branca com várias pequenas fotos Polaroid penduradas nela. As fotos estão em ordem cronológica, e uma de um dia diferente do outro. A primeira foto é você neném (parece que essa fase nem existiu, né?), passando por você criança, aborrecente, jovem adulto, morando em um puxadinho de madeira no quintal dos pais, agora noivo, foto do casamento, foto do primeiro filho, do segundo, até chegar em uma foto de você ontem. Com a barba a fazer, olheiras, barrigudinho, usando uma camisa polo e um tenis nike shox. “Como eu era brega quando usava calça de veludo”

Na parede, tem 1 foto por ano vivido. 50 fotos. “Eu não quero lembrar da época que morei em um puxadinho de madeira no quintal dos meus pais, por mim nem revelava essa foto. Graças à Deus, hoje a minha vida é bem melhor.”

É louco como a gente não pensa que hoje eu só sou um senhor de 50 anos barrigudinho que usa camisa polo e um tênis nike shox no mesmo look porque um dia fui um jovem magricelo que usou cabelo até a cintura e calça de veludo grená.

Retire da parede a foto do puxadinho de madeira no quintal dos pais e junto seja obrigado a tirar aquela foto sua com a chave do primeiro apê em São Paulo. Deixe de revelar uma daquelas fotos que você separou no ano passado, e tenha um álbum de memórias incompleto.

Pois toda e qualquer situação que aconteceu no passado, seja ela boa ou ruim, te levou até aonde você se encontra. Cada uma daquelas fotos de cada um dos seus anos vividos, de cada fase de moda que você experimentou, formam a construção do seu ser, e são você, quer queira quer não.

Hoje, Clodoaldo prefere mil vezes morar em uma casa legal em São Paulo do que dividir um puxadinho com a falta de limpeza de um jovem adulto que mora sozinho. Mas Clodoaldo não pode jamais deixar de levar consigo a foto do barraco. Nem a da calça de veludo, e nem a do bebê que ele nem lembra que um dia já foi. Se não fosse por esses Clodoaldos do passado, o de hoje não seria nem a metade do que ele é.

Agradeça o você de ontem por se tornar o você de amanhã, e respeite a importância que ele teve neste processo.

“E aí semente, já nasceu?”

Era uma vez uma jardineira.

Quando criança, Shirley, a futura jardineira, não gostava de plantas. De flor, mais especificamente. De acordo com ela, flores eram objetos sem valor. Dar flor de presente para alguém, então, só mostrava o quanto a pessoa não gostava tanto assim da outra – um presente fácil e que, na verdade, não queria dizer nada.

Ela não admitia, mas para ela, flores eram tão maravilhosamente surreais e perfeitas, que acabavam se tornando feias e banais. Sabe aquela pessoa que você olha e pensa “Meu Deus, essa pessoa é tão linda e sem defeitos que fica até feia e sem graça”? Então.

A vida foi passando e Shirley virou adulta. Por puro e simples prazer de comer, e preguiça de ter que ir no supermercado comprar salsinha para depois de dois dias ela morrer de frio no fundo da geladeira, Shirley resolveu ter uma hortinha em casa. Comprou um vasinho de manjericão, botou na varanda, e lá deixou.

Mas Shirley tinha pena de comer o manjericão. Ele era tão cheiroso! “E se eu tiver botando muita água? E se eu comer tudo e ele não crescer mais?”. Pobre e ingênua Shirley.

O primeiro vasinho morreu de frio. O outro de sede. O terceiro de causas naturais, vulgo falta de sol.

Shirley cansou de matar seu manjericão e resolveu pesquisar mais sobre plantas. Algo dentro dela se conectou com o basilico e começou a enxergá-lo não só como um um alimento, mas como uma espécie de filhote, que precisava de cuidados para viver uma vida saudável.

A vida tem tanta sincronia que fez Shirley se tornar mãe de plantas na mesma época que ela se tornou mãe de si mesma. Deixe-me explicar.

Shirley criou uma horta a partir de sementes de diferentes plantas. Regou com carinho, cuidou delas e as esperou brotarem do chão. A maioria demorou meses pra nascer, outras brotaram rápido mas não deram frutos, e uma outra, que ela tanto ansiava, teve sua terra invadida por uma planta vizinha e não teve espaço pra nascer. Frustrada, Shirley até tentou plantar amor-perfeito algumas muitas vezes, mas a semente não deu nem sinal vida em nenhuma.

Porém, algumas sementes brotaram e se tornaram mudas exuberantes. De ficar parado admirando, quão lindo aquilo se tornou.

Porque a vida é assim. É uma crença pessoal, mas, na minha opinião, tudo que eu faço, por menor ou maior que seja, estou plantando uma semente. Que pode não dar fruto, que pode ser um fruto de uma semente plantada no passado, que pode ameaçar crescer mas não ir pra frente, que pode ser ofuscada por uma semente vizinha que eu nem sabia que tinha plantado, ou pode nunca nascer. Mas é uma semente que estou plantando.

Só isso já daria uma semana inteira de reflexão. Às vezes, a semente que eu plantei pode até nem ser pra mim, mas para benefício de alguém próximo. Outras vezes alguém pode plantar, sem saber, uma semente pra mim, ao fazer algo que me inspira. É muito pano pra pouca manga.

Plantando, nossa personagem super fictícia Shirley passou a entender o quão incrível é esse processo de ver suas sementes, filhas do seu próprio esforço, brotarem do chão. Quando se tem consciência desse processo, viver se torna muito mais leve. Fica mais fácil entender que sementes levam um tempo pra nascer, depois pra se tornarem mudas, e mais ainda pra dar frutos. Que morrer faz parte do ciclo, e que depois é só plantar de novo.

Hoje consigo esperar cada etapa com tranquilidade.

Além disso, se tem uma coisa que eu aprendi esse ano foi ouvir o que a natureza tem pra me falar. Ela é realmente um espelho da vida, e uma fonte de sabedoria infinita.

E eu vi isso na prática, com meus próprios olhos, dentro da minha própria casa. Esses tempos, comprei uma muda de taioba que era bem baixinha, e coloquei ela na sala. Percebi que estava precisando de luz, porque as folhas estavam ficando amareladas. Então, coloquei ela embaixo da janela do escritório.

A janela era mais alta que a planta, mas proporcionava uma boa claridade. Você, leitor, acredita se eu disser que as folhas da taioba criaram um mecanismo de adaptação e cresceram até a altura da janela? A folha amarelada que ela já tinha morreu, e uma nova nasceu, um pouco mais alta que a última. Essa também morreu, e uma nova nasceu, com o caule mais alto ainda. Esse ciclo foi acontecendo até ela chegar-à-altura-da-janela, e depois parou de morrer.

Isso não é simplesmente tão incrível? (!!!!!)

Mais que incrível, me ensinou uma lição valiosa. Se, para se adaptar, uma planta morre e renasce algumas vezes, até conseguir o que quer, porque eu não posso fazer isso também? Não só posso, como devo! Deixar uma versão nossa antiga morrer e nos tornarmos alguém melhor é um ciclo natural, que deve ser repetido até o fim dos tempos. Até eu conseguir o que eu quero, até eu me tornar quem eu quero ser, até eu chegar lá e descobrir um novo lugar que eu quero chegar.

Eu -juro- que a natureza fala. E ela me disse pra não ficar ansiosa e parar de ir conferir todos os dias se minhas sementes já brotaram. Ela me disse para ter paciência e continuar plantando várias sementes todos os dias. Disse ainda que cada uma tem o seu próprio tempo de crescimento, e que, pelo menos uma delas, vai nascer e dar frutos maravilhosos.

Amém

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Foto: Praia do Campeche, Florianópolis.

Vitimice

Não é que eu estou estou me fazendo de vítima, eu só acho que é injusto isso ter acontecido.

Porque, sabe, não é que as coisas não saem como eu quero, mas seria muito melhor se fosse assim do que assado. Não entendo porque isso aconteceu, parece que eu só atraio problema nessa vida.

As coisas sempre dão certo com todo mundo. O fulano tá ganhando dinheiro, a ciclana tá feliz no trabalho, a fulana se mudou pra Nova Iorque, mas eu, não. Parece que sou a única pessoa no mundo que não consegue viver em paz e ser feliz. Que saco!

Antes parecia tudo mais fácil, não é mesmo? As coisas iam acontecendo, e fluindo… Por que será?

Começo dizendo que é por causa do padrão de vítima. Viver em estado de vitimice é viver achando que tudo lá fora é o culpado do problema, e que o “mundo” vive contra nós. É botar a culpa lá fora, ficar procurando um alguém para apontar o dedo, e mudar de humor com base no que acontece ao redor.

Há uns dois anos, aprendi que a “a saída é pra dentro”. Entendi dentro como sendo (literalmente) dentro de mim, do meu ser, da minha alma, da minha mente. Enquanto que fora é o mundo fora de mim. Aquilo que não está dentro do meu ser, ou seja, o mundo físico, visual, genético, epigenético…

A vítima, ela depende dos acontecimentos lá fora. Ela fica feliz se algo de bom acontece, e fica triste se algo de ruim aparece. Ela sai daqui de dentro, se desconecta da alma – que é só bem-estar – e permanece apoiada pra fora da janela.

Sem perceber que, até certo ponto, ela mesma é responsável por criar as coisas lá fora, a partir do que vem aqui de dentro.

Sem entrar no conceito do 100% de responsabilidade, que é só pros fortes de coração, eu chuto com precisão que a resposta se encontra no padrão de vítima. Que tudo depende de como eu escolho ver/viver a vida: sendo uma vítima à mercê do que cai no meu colo, ou escolhendo, de antemão, como eu quero me sentir daqui pra frente, e projetando um futuro feliz pra mim.

É como se fosse aquela pessoa que reclama que não tem ovo em casa, mas não sai pra comprar uma caixa. Que não gosta do que faz, mas trabalha no banco há 10 anos. Que sabe que o/a parceiro/a não é bom, mas o/a ama demais pra deixá-lo e ser mais feliz que aquilo. Que tá sem dinheiro, mas tem medo de arriscar algo novo. Que…

Basicamente, que prefere continuar no conforto do desconforto, do que buscar o desconforto de um futuro conforto. E que, claro, tem argumento pra cada um desses tais desconfortos.

Estamos todos no mesmo barco. A sociedade que nos condiciona e nos educa para crescermos achando que é normal/legal agir em estado de vítima (que nem essa frase)

Mas, meu amigo, deixa eu te contar uma coisa. Quando a gente sai do vitimismo, uma coisa mais legal que a outra acontece. Abre-se espaço para a imaginação e para a chegada de coisas incríveis & maravilhosas & sensacionais. Já posso até sentir. A alma tem voz pra cantar e, com nossa estabilidade emocional no saldo positivo, trazer mais e muitas positividades. É o tal do good vibes only

E pra sair do estado de vítima, basta se perguntar: qual a lição que isso quer me ensinar? O que devo aprender com isso? Depois, é só seguir em frente.

Já ouviu a palavra do #goodvibesonly hoje? Bora olhar pra dentro e se comparar consigo mesmo! Nada de olhar pro lado, nem de se apoiar pra fora da janela. Bora se limpar do padrão de vítima e começar a assumir as devidas responsabilidades.

Como já diziam os antigos: a vida é bela, nóis que fode ela.

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Foto: Gordon’s Bay, Sydney – Australia

O tal do “quem sou eu”

O que me faz ser quem eu sou? Eu sou mesmo quem eu represento ser? Quem eu quero ser?

24 horas, 7 dias da semana. 365 dias por ano, essas perguntas dão o ar de sua graça. Eu sou mesmo quem eu penso que sou? Eu sou realmente quem eu estou sendo?

Será que, quando eu tinha 17 anos, eu era mesmo quem eu realmente era? Com a mentalidade de hoje é fácil olhar para trás e apontar os dedos. Julgar quem eu fui, dizer que fiz tudo errado, se arrepender, querer voltar, nostalgia, choro, impotência, frustração, conformação. Na semana seguinte, julgar quem eu fui na semana passada, dizer que fiz tudo errado, se arrepender, querer voltar, nostalgia, choro, impotência, frustração, conformação. Daqui três meses, julgar quem eu fui há três anos, dizer que fiz t…

E assim começa a disputa do quem sou eu construtivo contra o quem sou eu destrutivo. Qual predominará as emoções daquele ser?

Esses dias aprendi que depressão é quando a gente resiste em se tornar a nova pessoa que já somos. Sim, eu repito. De acordo com o que o aprendi daquele ensinamento, a depressão aparece quando já nos tornamos uma nova pessoa mas estamos com medo de deixar de ser quem a gente era. Permanecemos no luto entre a transformação do velho para o novo.

Sem entrar no mérito da doença e da dificuldade que pode ser sair dela, e se nos trabalharmos para aumentar nossa disposição para aceitar mudanças? Não, não é fácil, pois é mais confortável permanecer infeliz no conhecido do que aceitar a chance de ser feliz no desconhecido. Porém, é um trabalho diário e eterno que – eu garanto – fica mais fácil a cada dia.

Há dois dias, resolvi aceitar a mudança que evidentemente estava acontecendo na minha vida. Fui obrigada a alterar meus planos para esse momento, e, por mais que foi super fácil aceitar esta mudança, foi difícil conviver com ela. Mais uma vez, foi difícil aceitar que eu consigo enxergar, e sei, que é possível ser feliz nesse novo desconhecido, por mais que muitas trilhas neurológicas de paciência tenham que ser construídas agora.

Mas, vou te contar uma coisa. Assim que eu decidi me desprender do controle mental de controlar o meu futuro – de controlar como as coisas vão acontecer e o que vai acontecer – e simplesmente permitir que meu corpo me mostre o caminho, frutos desse esforço já brotaram!

Agora, me sinto brotando, e com fluidez.

Porém, entretanto, contudo e todavia…… o trajeto requer sentimentos negativos. O choro, impotência, frustração, e conformação são necessários. Graças à eles, me senti obrigada a me rever e me estudar infinitas vezes até entender aonde quero chegar. Cada reflexão de dor me trouxe claridade pra chegar até o prazer.

Volte ali em cima e releia o ciclo que surge ao apontar os dedos. O quem sou eu destrutivo começa a partir do julgamento em relação ao passado, enquanto o quem sou eu construtivo começa pelo choro e adiciona reflexão + mudança em sua fórmula.

Convido você a, hoje mesmo, se policiar para não tomar a rota destrutiva e, por livre e espontânea pressão, iniciar o ciclo do quem sou eu construtivo.

Se não está conseguindo encontrar saída, a solução não é questão da mente, e sim do corpo.

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Foto: South Island – New Zealand

Círculos de ciclos

É como um ciclista que anda em círculos e não sabe para onde vai.

Dá de ver acontecendo, dá para perceber passando, dá para quase tocar, mas não dá para controlar. Às vezes, passa muito rápido. Mas muito rápido mesmo, questão de horas, dias, ou segundos. Outras vezes, passa devagar quase parando. Andando pra trás, dando voltas, um ciclo demorado que parece não acabar nunca.

Na minha vida pessoal, eu sei que vivo um ciclo que ainda não se acabou, e que começou fazem 3 anos. Um não, dois. Tenho consciência que há dois ciclos acontecendo na minha vida, que ainda não se acabaram totalmente, e que começaram à três anos atrás.

Porém, tem dias que eu vejo um ciclo começar e se acabar tão rapidamente, como se eu tivesse piscado um olho e, ao abri-lo novamente, já havia se evaporado. Num piscar de olhos, minhas emoções durante o dia vem e vão, acordando empolgada e indo dormir com raiva, tomando café da manhã tristonha e jantando com um sorrisão alegre no rosto. Dentro de um dia, eu visito inúmeros e diferentes ciclos de humor e pensamentos.

Já vi também ciclos semanais. Antes do Natal, passei a semana triste e completamente desesperançosa com a vida. “Não adianta, não tem jeito, o ano acabou e não consegui o que eu queria. Sou um desastre mesmo.” Na semana seguinte, já estava inundada de esperanças e planos para o ano que promete, com a certeza de que tudo iria dar certo e algo novo estaria por vir.

Mulheres, já conversaram com seu ciclo menstrual? A fonte da sabedoria, o pote de ouro embaixo do arco-íris. O olho que tudo vê e tudo sabe, que tudo sente, que tudo limpa, que tudo renova. Menstruação é ouro, é choro, é sujeira, é pureza, é esperança. Ela me diz tudo que eu preciso saber, me mostra os caminhos, me guia em direção aos meus sonhos, chama minha atenção ao que preciso melhorar, me dá feedback sobre minhas ações, me conecta com o meu ser.

Ela é pesada. Carrega infinitas gotas de sabedoria. Carrega o fim e o início de um ciclo, carrega dois ciclos de uma vez só. Ela é a velha sábia, a mulheridade, feminidade, a minha La Loba.

Se você conseguir conectar, sincronizar mente e menstruação, não há medo que sobre, não há dúvida que reste, não há meta que não seja atingida. Não há ciclo que não seja identificado. Muitos ciclos externos revelam suas fases durante a menstruação, e o próprio ciclo menstrual revela a fase interna da mulher naquele momento. Como?

Seu ciclo já atrasou uma semana? Duas semanas? Quatro dias? Dois meses?

Aparentemente, sem nenhuma explicação, ciclos menstruais (naturais) se atrasam, pois eles são e estão em perfeita sincronia com a fase interna da mulher. Com o conjunto de emoções daquele momento, com os desafios, com as lições, e com tudo que a deusa está passando. Se atrasam para se alinhar à lua e potencializar a concretização de um objetivo, se atrasam para se alinhar à lua e permitir que a fase introspectiva se estenda mais um pouco.

A vida dá voltas e ciclos são feitos de círculos. Tem começo, meio, e fim. Esse fim é o vazio, é a transição de um ciclo finito para um ciclo melhor. O vazio é o ponto de intersecção aonde as linhas de um círculo se encontram para fechá-lo – é o fim de um junto do início de outro. É o lugar de infinitas possibilidades, de descanso, de carregamento da bateria. O vazio permite a renovação de sonhos e comemoração de conquistas passadas.

Já reparou nos seus ciclos? No ciclo menstrual, no diário, no mensal, no semanal. No anual, e naqueles ciclos anuais. Eles são excelentes fontes de sabedoria e conexão do ser. Do ser humano mesmo, seja ele homem ou mulher, pois ciclos não fazem distinção de raça, cor, gênero, nem credo.

Ontem, eu oficialmente encerrei um ciclo. Amanhã, eu oficialmente iniciarei um novo. Durante a noite de ontem para hoje, eu menstruei. E isso realmente aconteceu.

Se isso não representa sincronia e sabedoria, eu não sei mais o que coincidência não é

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Foto: Praia da Silveira, Garopaba – Brasil