Simone achava que não tinha mais volta, dessa vez a decisão era conclusiva:
não iria conseguir se tornar quem ela gostaria.
Passara uma vida inteira tentando, sonhando, e criando o dia em que iria conseguir vencer o concurso dos seus sonhos: o tão famoso e mundialmente esperado Miss Rabverse.
Trata-se de um concurso sediado apenas uma vez por ano na cidade de Nutsville que reúne nada mais nada menos que os melhores e mais renomados criadores de rabanada da cidade, e que coloca o vencedor no patamar de melhor rankeado rabanense do pedaço.
Simone já havia passado por 13 concursos e não tinha conquistado sequer o terceiro lugar em nenhum deles.
Sua filha, Sin Esperanza, já não sabia mais o que fazer com as desilusões da mãe, e todos os dias insistia que Simone largasse mão do concurso e ficasse quieta em casa tomando conta de Hopeless, sua clínica caseira de pets.
Simone era formada em veterinária, mas descobriu a paixão por cozinhar depois que entrou em depressão profunda quando saiu da casa dos pais e engordou 25 quilos comendo rabanada em todas as refeições desde o dia da partida. Encontrou tamanho prazer no doce que escondia pedaços de raba na gaveta do banheiro, embaixo da cama, na prateleira de sala, e até na bolsa de primeiros-socorros que deixava na clínica para situações de emergência.
Desde então, sonhara em proporcionar o mesmo nível de prazer a todos os digníssimos cidadões de Nuts por meio da melhor rabanada que a cidade já viu.
Tentava e tentava, um dia após o outro, todas as receitas que encontrava, mas nenhuma resultava numa rabanada prazerosa o suficiente. Não chegavam nem perto do nível de prazer experienciado por Simone na primeira vez que comeu o doce, o tipo de prazer que faria ela ganhar o concurso sem um pingo de sombras de dúvida.
“NÃO TEM ERRO!”, disse Patrícia. “Tem uma velha cigana que eu vou me consultar toda semana pontualmente às 15h04 de segunda-feira para ela ler a minha mão — às vezes as previsões são meio duvidosas, mas a velha NÃO ERRA UMA!!!!
Ela mora num beco sem saída, num pequeno alley minúsculo que nem bicicleta passa direito, há 20 minutos de distância da cidade. Vale muito à pena! Vá, e não peques mais!”
“Por quê não?”, pensou Simone. “Sin Esperanza está de férias na casa da vó e Hopeless fechada pro resto da semana, então não há nada que me prenda em casa mesmo… vou marcar é pra hoje ainda.”
Algumas horas depois, após ficar emperrada na entrada do alley por não caber na passagem e todos os moradores da vila terem que besuntar Simone em manteiga de karitè para ela conseguir entrar no beco e andar até o consultório da cigana, Simone se encontrava agora de frente para a senhora-que-tudo-sabe, iluminada apenas pela leve chama de uma vela.
Através do quase nulo campo de visão ali extentente, Simone percebia que a velha lhe encarava de cima à baixo, com um olhar raivoso de quem se entrega intensamente, enquanto puxava com força os dedos da mão em sua direção.
“Apenas me diga se vou ou não ganhar o concurso e deixe-me ir embora”, ordenou a besuntada.
“O que você procura está bem embaixo do seu nariz”, respondeu a senhora calmamente.
“Sim – a sua mão lendo a minha! Então me diga logo o que você tá vendo aí”, resmungou Simone.
“A resposta tá na ponta da minha língua”, disse a experiente cigana. “E, o destino, na palma da sua mão. Só você tem o poder de transformar uma experiência frustrada em um belo deleite de prazer.
Só você é capaz de escolher a forma com que vai enxergar sua jornada de busca pela rabanada perfeita: tentativas frustradas de receitas infelizes – ou belos aprendizados sobre o que não funciona.
Uma jornada dolorosa repleta de insatisfação VS. uma jornada divertida repleta de novas descobertas
A realização de que o sucesso é impossível VS. de que está um passo mais perto de alcançá-lo
O sentimento de que o passado foi uma cronologia de falhas VS. a sensação de que foi uma sequência de erros assertivos.
Você define a sua história, e as consequências dela.”
“E DIGO MAIS!!!!”, gritou a velha. “Procure o procurado que encontrarás o que procuras.”
*1 minuto de silêncio*
*2 minutos…3…5…8…*
“Simone?”, perguntou a cigana.
*mais três minuto de silêncio*
De repente, de olhos fechados e com as mãos tapando os ouvidos, Simone levantou e foi embora.
“Essa velha faladeira passou dos limites”, pensou ela enquanto caminhava em direção à porta.
“Muito fácil ganhar dinheiro hoje em dia sendo uma charlatona. Prefiro morrer tentando do que dar ouvidos a ela e encerrar este capítulo da minha vida”.
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Foto: Salinas Grandes, Argentina

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