ABRE A JANELA

Escrever… ato ou efeito de manifestar uma inquietude construtiva, um grande desconforto ou um verdadeiro e longo sorriso torto.

Porque existir é viver uma vida bem sentida.

por Diana T. Sposito

Medo da morte

A primeira vez foi na escada da casa de praia dos meus avós. Devia ter uns oito anos, por aí. Era verão, final de ano. A família toda estava em casa.

A escada ficava bem no meio entre a sala de estar e a cozinha, e tinha só uma ripa de madeira entre o chão e o corrimão então de um lado do vão era possível ver a televisão.

Já era noite, estavam todos jantados e fazendo a digestão. Minha mãe tava enchendo o saco pra eu ir dormir mas queria ficar acordada até tarde então aproveitei a hora que ela foi tomar banho e me escondi no cantinho da escada pra tentar mais um pouco.

Pela frestinha do corrimão, fiquei assistindo o Jornal Nacional que passava na programação.

Era só mais uma noite qualquer até que, do nada, me deu um estalo. Não faço ideia do que exatamente aconteceu, mas algo que apareceu no jornal me engatilhou de um jeito que era como se eu tivesse entrado em uma realidade paralela e saído do meu corpo. Do nada, comecei a me desesperar e a chorar.

Não sabia o que fazer, pra onde correr. Comecei a bater loucamente na porta do banheiro e a gritar: “SOCORRO!!!”

Não conseguia nem respirar. Ficava alguns segundos sem ar e tentava com toda força puxar o restinho que me (parecia) sobrar.

Me sentia sem controle, desacoplada de mim, como se fosse uma terceira pessoa enxergando aquela cena de fora, do alto.

A família toda veio correndo na minha direção, perguntando, quase tão desesperados quanto, o que tinha acontecido. Demorei. mas, assim que consegui, respondi:

UM DIA NÓS VAMOS MORRER!

Um dia a nossa família toda vai morrer e nunca mais na vida vamos nos ver! O que vai acontecer? Pra onde vamos? Eu quero ficar com vocês, não quero me separar nunca!

Quanto tempo dura a eternidade? E se vocês morrerem amanhã, como vou viver? Quem vai cuidar de mim? E se Deus me odiar e levar só vocês pro céu? Como a gente vai se encontrar?”

Claramente nenhum adulto ali sabia exatamente o que falar.

Havia uma criança aos prantos fazendo mil e um questionamentos sobre a morte e sua tão nebulosa consequência.

Haviam adultos surpresos com mil e um sentimentos sendo obrigados a encararem a morte e sua tão nebulosa consequência.

E isso se tornou um episódio corriqueiro na minha infância inteira até por volta dos meus 15 anos. Acordava desesperada, no meio da noite, sentava na cama dos meus pais e por ali ficava, durante um tempo, chorando até passar.

Nunca soube exatamente como lidar.

Naquela noite de verão, fizeram uma roda de oração pra tentar me acalmar. Me levaram pra conversar com um padre e fazer terapia e, depois de um (bom) tempo, o medo passou.

Mas agora, com quase 30 anos de idade, voltou.

Hoje, as crises de pânico de medo do pós-morte são bem mais rápidas – e intensas. Normalmente logo antes de dormir, ao deitar.

Com a mesma sensação de sempre, como se eu estivesse, lá do alto, me vendo viver momentos que nunca mais vão voltar

Hoje eu não quero mais uma resposta. Não quero pensar nem tentar raciocinar. Ouvi muita coisa diferente ao longo dos anos e acho que pode ser um pouco de tudo, sei lá.

O problema é a sensação de aflição que aperta meu coração e enche de angústia o meu pulmão. Que me faz duvidar qual é o sentido de me sentir tão feliz assim, de alcançar tudo que eu já quis conquistar para um dia isso simplesmente acabar.

De amar pessoas incríveis que pro resto da minha vida eu quero levar mas que na verdade só vão ficar enquanto pela Terra eu perdurar porque em algum momento minha existência vai findar.

Ou vai continuar, não sei, mas não vai ser a mesma presença terrena mundana e profana que eu tanto gosto de suportar nessa realidade plana.

Não quero, não nego, não entendo. Não temo mas se duvidar é só o medo brotar que me ponho a disparar. Não é nem o medo mas como é que eu vou caminhar sozinha pro resto do pós-vida sem as pessoas que eu mais amo a companhia?

Não ligo, não me obrigo, contradigo. Não é nem o medo mas quando é que eu vou abraçar o fato de que não tem como mudar o fato de que a morte um dia vai chegar e de fato nada daqui eu vou carregar?

Não consigo mais nem me emocionar ao indagar porque ao racionar é tranquilo relaxar e nas mãos de Deus o meu destino colocar. O problema é a sensação de suor na mão que do nada me encharca e por sinal de uma forma bem diferente de um tesão ao ver um pomo-de-adão.

Quando é que isso vai passar?

Ainda não consegui parar pra rezar. Procuro evitar encarar esse assunto tão chato então sigo no anonimato em relação a esse tema abstrato.

Porque eu sei que qualquer tentativa de responder algo sobre a morte não passa de um mero boato

e a única coisa que eu realmente devo me questionar

é se um dia eu vou conseguir aceitar

o que a morte está querendo me comunicar.

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