Resolvi testar observar em vez de expressar
Um sentimento.
Tipo, senti raiva de alguma coisa –
em vez de chegar e começar a justificar pra alguém a minha raiva
o porquê dela,
e o porquê eu tenho razão em sentir ela
(~teoricamente razão~)
algo em mim
me fez parar e só me observar sentindo essa raiva.
Literalmente, como se eu fosse apenas e simplesmente uma mera telespectadora da minha própria novela mental.
De longe, observei o desenrolar da cena:
Eu tava ali, vivendo a minha vida. Tinha acabado de chegar num lugar, e encontrei uma certa pessoa, que por sinal já tem um grande histórico de me irritar.
Ela me vê, me cumprimenta, e a primeira coisa que ela me fala já foi o suficiente pra eu completamente me desalinhar.
gggrrrr que raivaaa
Que pessoa ABC, por que ela ta falando XYZ, como ela é EFG etc etc
“Isso é um ataque direto a mim, não é possível. Ela é tão assim, será que ninguém vê que essa pessoa tem mais garras que um mandolin?”
Na hora eu deixei passar, como sempre. Ainda não aprendi a por um fim. Mas aquilo ficou remoendo na minha mente, como de costume, e eu fiquei com um bode maior que uma grande roda de pagode.
Tentei abstrair. Porém, sem demora, minha mente fez questão de me lembrar.
Não sei se era noite de lua cheia, eu tava alinhada com as estrelas, ou tinha um sangue novo correndo em minha veia, mas, dessa vez, em vez de protagonizar, resolvi ativamente me recuar.
Dei um passo mental pra trás, tomei um ar e me pus a guardar o pulsar da minha ira.
E foi aí que eu acertei a mira –
Me enxergar sentindo foi diferente de sentir.
O simples ato – rápido e fácil – de observar abriu espaço instantâneo pra tudo clarear. Me trouxe a justificativa pra justificativa, 100% fundada em algo que eu também carrego dentro de mim.
Não bom nem ruim, mas um comportamento ou até mesmo um pensamento que também pode me fazer agir assim.
De vez em quando, em outro contexto, de outra forma, nem que eu não expresse aquilo externamente – eu sei que essa atitude que me irritou nela também se faz presente na minha mente.
Uma falha conjunta que de cara já responde a pergunta: Seria eu isenta do defeito do outro?
Porque a todo tempo, a gente aponta o dedo e condena o lado azedo do ser humano alheio como se em nós não se manifestasse nunca aquele anseio. Como se a gente não repetisse exatamente o mesmo padrão de reclamação, de expressão, do pior que habita o nosso coração.
Não, eu não sou isenta daquele defeito porque eu também reproduzo aquele efeito.
Somos mais parecidas que eu gostaria, pelo jeito.
Mas pelo menos agora, graças ao observar, posso procurar a (minha) causa e reparar a ferida que rachou minh’alma e fez de mim o perfeito reflexo de um parecer tão complexo como esse.
Posso enfim admitir sem medo que a raiva do comportamento alheio é um espelho de minha conduta em segredo.
Posso me curvar ao arrependimento e me comprometer a fazer diferente daqui pra frente, a fim de colher o fruto que o silêncio produz na gente.
Ou será que o próprio observar já é colhe-lo?
Não sei. Só sei que rejeitar a semelhança não é um caminho pra seguir como modelo.
Por isso mando um salve – à mudança de atitude, à metanoia, e à coragem do esculpir da jóia.

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