Um manifesto à arte de viver sem medo
Eu não morri ainda pra saber como vai ser,
mas, se tivesse que chutar, diria que nada daqui vamos levar
a não ser nossos cinco sentidos.
Não os cinco sentidos em si – tipo cheiro ou paladar
Mas tudo que vemos, comemos, cheiramos, tocamos e ouvimos por meio deles.
O subjetivo das experiências que nos moldaram,
eu chuto que é ele que traz significado.
Já pararam pra pensar que tudo na vida é emprestado?
Casa, carro, ainda não descobriram um jeito de pagar um frete pro outro lado.
E, não sei se já se tocaram, mas a real é que todo bem acumulado não passa de um bom e velho (divino) empréstimo consignado.
Tudo que se é doado… ao doador será retornado.
Agora, em compensação, pisar onde o deserto encontra o mar é uma comoção que não tem como apagar, nem se tirar, nunca,
impossível não carregar a emoção da perfeição que é a estreita faixa de areia que une dois universos tão distintos a ponto de escancarar o fato de que deserto e mar são feitos exatamente do mesmo substrato:
Areia!
De verdade, como pode dois opostos se assemelharem com tanta naturalidade?
É esse o tipo de coisa que me faz questionar “como pode alguém não ter vontade de se perder no meio do nada, ou de se jogar na estrada, seja lá onde for,
e não ter curiosidade de conhecer mais de perto a imortalidade?”
Tudo bem que querer não necessariamente é poder, mas é o primeiro passo pra um dia fazer acontecer.
Além de que uma vista bela tá logo atrás de qualquer janela.
É que, na minha percepção, a natureza ser tão rica de beleza é o que faz a gente ter certeza de que a nossa bolha de realidade não passa de um mero evento passageiro, uma ínfima fração da imensidão.
É o que faz com que o meu critério de valor seja priorizar o mistério de como embaixo da terra pode ter tanto minério, ou como é possível essa montanha ter todas as cores do arco-íris?
Penso que é aí que mora a razão do viver, que faz a gente existir sem medo de morrer.
Tipo aquilo que não é compreendido nem pela ciência, por exemplo, penso que é esse o tipo de vivência que vai tatuar o nosso espírito e fazer a gente se sentir compelido a lembrar por encarnações aquilo que fez encher de ar nossos pulmões.
Uma paisagem exorbitante, uma comida inesperada, um cheiro ruim, uma música que te prende, uma textura surpreendente.
É exatamente disso que vamos lembrar lá na frente.
Por isso hoje escrevo um manifesto à arte de viver sem medo, de olhar em volta e perceber que o que realmente importa é a impressão da experiência que fez bater mais forte teu coração,
que tirou – e reconstruiu – teu chão,
em vez da manifestação proveniente da vaidade que forjou teu senso de identidade.
Não que tenha algo de errado com a efemeridade – longe de mim quem pensa assim
Mas, pra tocar no céu é preciso sair um pouco do papel, sabe, vestir o chapéu de cigano de vez em quando e ir em busca da raiz do que te torna humano.
Que nos odeiem, que nos amem, pra mim nada disso interessa contanto que eu sinta à beça o máximo do que o planeta terra é capaz de me surpreender.
Que dançem, que cantem, que os seres pra sempre se espantem com o fato de que é num único respiro,
proveniente de um longo e profundo suspiro ao se deparar com um meio ambiente impossível de absorver com a mente,
que se relembra
que Deus é vivo.
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Foto: Dead Vlei, Namibia

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