Existe um certo milagre nos encontros,
certa vez ouvi dizer.
O milagre do lugar certo na hora certa, seja lá o que “certo” parecer.
Certa vez pensei, como é que pode o relógio bater meia-noite e dois,
e nós dois,
estarmos nesse mesmo lugar esse mesmo horário
graças ao mesmo impulso involuntário
que nos arrancou do nosso imaginário solitário,
e nos trouxe pro outro lado do mundo pra sentar na mesma mesa e tu se mexer no exato segundo que eu puxei minha cadeira que esbarrou na tua e a gente se pediu desculpa.
Quem diria que graças ao embate milimetricamente sincronizado de um mobiliário e uma conversa improvisada sobre as dores e delicias de ser universitário,
tu vai se tornar tamanha parte de mim que teu nome vai estar até nas homenagens do meu obituário.
Quem cronometrou o momento exato pra tu se mexer e minha cadeira amortecer minha queda porque tu tava ali pra eu me apoiar em ti?
E como que não era fulano ou ciclana sentado na mesa, mas tu, especificamente tu,
que veio lá do nada de repente se tornar tudo pra mim nessa madrugada.
Não conhecia tua existência, depois de meia-noite e dez já tinhas virado meu contato de emergência.
Celebro nosso encontro mas questiono meu desencontro com toda a outra fração da humanidade que não vou me deparar porque não vão estar no mesmo lugar que eu, na mesma hora que eu, no mesmo campo de visão que o meu.
Quase me sinto ateu ao pensar na quantidade de gente que não vai passar por mim em algum instante conveniente por aí.
Que desperdício!
Sei lá, vai que ali tivesse alguma semente de uma paixão arrebatadora, uma emoção surpreendente ou uma amizade pra vida toda?
Sou obrigado a aceitar morrer sem conhecer o diferente porque meu destino é em direção ao sol poente enquanto o deles ao sol nascente,
e não há nada que eu possa fazer pra alterar essa corrente.
Quanto amor se perde por falta de sincronia.
Será que eu conheci todo mundo que deveria?
Quanta gente eu encontrei por sintonia.
Não é tolo dizer que o amor é sagrado,
que o acaso é ousado
e o tempo é algo emprestado pra ser usado por nós num perfeito instante compartilhado.
Que existe um certo milagre nos encontros,
sejá lá quem decide o que certo quer dizer,
que faz eu e tu estarmos na mesma hora e lugar
dividindo o momento presente e se pondo ausente em um eventual desencontro evidente.
É isso, caros conhecidos e desconhecidos,
brindemos à sincronia que nos aproximou, à repulsa que nos afastou e à falta de controle que o universo nos escancarou.
Que assim seja feito, então, lembrado pra sempre por quem viveu e esquecido eternamente por quem nem se conheceu.
Afinal, nesse mundo lotado de gente, o que mais existe é rotina divergente e ser humano descrente de que o desencontro é uma verdade inevitável,
imensurável,
e incontestável,
dessa vida inexplicavel.
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Foto: El Zonte, El Salvador

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