Deus me livre acordar sem questionar,
querer sem proceder,
avançar sem pensar em recuar.
Coragem se faz no medo de tomar uma escolha errada e seguir mesmo assim, Deus me livre não sonhar em um dia chegar no fim.
Porque quem diz que a vida é preto no branco nunca viu as cores do céu depois que o sol se põe em descanso, aah eu garanto, nunca viu sequer o brilho do olhar de quem teve um dia manso.
Deus me livre transceder só por fazer, sem propósito de pro mundo trazer a iminência de ter se tornado primeiro em essência.
Deus me livre achar que acaba por aqui, que o melhor livro do mundo eu já li, que amei tudo que eu tinha para amar, criar, já dancei tudo que meu corpo é capaz de dançar.
O céu o limite e Deus me livre achar que finitude é algo além de um simples e mero palpite.
Não, não é não, eu me recuso a aceitar que isso aqui é um convite ao conformismo, muito pelo contrário, na verdade, Deus me livre se conformar com o pessimismo de quem existe sem questionar o ceticismo.
Só se eles tão querendo acabar com o romantismo, meu Deus do céu, não é possível!
E se… apenas imagina, e se… a gente se jogasse do abismo com a mesma confiança de quem pisa um pé depois do outro sem perder o equilíbrio
e,
ao mergulhar no desconhecido,
a gente percebesse que não existe nada mais lindo
do que chorar sorrindo?
Do que tentar de novo, e se sentir capaz de recomeçar, se precisar, mesmo na falsa certeza de que não vai dar ou de que os planetas não vão se alinhar e que blablabla
Que falsa modéstia é essa de dizer que “assim tá bom”, meu Deus do céu, eu hein, grito em alto e bom tom “pode ser muito melhor”, se perguntarem minha opinião.
Porém, ao mesmo tempo, Deus me livre idealizar um capítulo sem colocar os pés no chão com a mesma consciência de quem busca uma maior presença.
Deus me livre e guarde da tentação de achar que o presente não é a mais pura perfeição, ou de que a história poderia muito ser melhor do que o agora.
Já tá mais do que na hora de aceitar a dualidade intrínseca de que, se melhorar, piora.
Bem-vindos ao universo humano, meus caros, onde metade dos contos ficam para outrora, metade é posto em penhora, e o resto que sobra fica às graças da reza de nossa senhora.
Porque daqui, nem os devaneios se leva embora.
Então Deus me livre não me perdoar por ser puxada pra fora,
de vez em quando.
É natural se convencer de que é justo se deixar levar pelo falso encanto de se sentir no comando,
não é?
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Foto: Luderitz, Namibia

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