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Sintaxe até dizer chega

Como eu criaria o amanhã… amanhã, se o amanhã chega antes de eu criar o amanhã… amanhã?

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Uma coisa é certa: tá todo mundo fazendo o melhor que pode.

Não me orgulho de antes, mas eu não sabia ser diferente. Achei que o que estava fazendo era o melhor que podia fazer. Sem nem saber.

Como uma forma de se proteger, a gente se tranca, se fecha, se amarra. Vira tabu, não pode nem olhar.

Quem dirá cantar

É difícil imaginar, que a vida sem pode ser, diferente do que foi.

Não vou mentir, aqueles que se entregam sabem o que estão fazendo. Admiro quem viva à base de vontades, quem cede à sedução de sentir o tesão de viver o momento.

Sexy é o contexto. É questão de opinião….

Sexy é o sentimento, tão intenso e visceral, irracional. É o desespero da espera de acontecer num agora. É paixão não materializada, fantasia criada, visualizada, vivida, contida.

Sexy é o irreal, aquilo que o próprio toque já diz tudo

Será que vale à pena calar a tempestade? O que essa força imoral de criação irracional está tentando nos dizer?

Porque… seria mais fácil se contentar com o incontentável seguro. Seria esse um processo reversível?

Qual

é

a minha

história?

Eu sei, possa contá.la como eu quiser. A interpretação faz parte da imaginação. Por que a necessidade de ser baseada em fatos reais?

Esses dias me peguei querendo descobrir todas as versões. Juntando umonte de opiniões e pontos de vista e perspectivas e relatos completamente parciais

Na busca incessante de catar todos os pedaços, entender por completo, juntar todas as peças e falar É ISSO!

Pensando na graça de fazer pirraça por não gostar da nossa desgraça…

Qual

é

a nossa necessidade

de entender 100% de tudo?

De falar EURECA! com vontade à beça de dizer EU SABIA que não tinha como errar ERA TUDO QUE EU QUERIA!

Vamos lá, ainda é tempo, ainda dá pra consertar, eu tenho fé que o jogo vai virar

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Ei ei ei ALTO LÁ!

É daqui pra frente amigo, o que passou ficou meu amôu

Aprende, compreende e bola pra frente!

Tu fostes o que tu sabias ser. Quem tu deves ser para se tornar o que sabes querer ser?

Bota nas mãos de Deus mas não esquece de botar nas tuas também porque no fim das contas rezar sem fazer é esperar o que nunca vai chegar

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Foto: Les Halles de Paris

Quebrando as regras de casa

“Ela é contra as regras”

Hmm, na verdade eu vivo sob as minhas próprias regras.

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Você já parou pra pensar na diferença entre normas impostas pela natureza X normas impostas pelo homem?

Naquelas eu acredito, nessas já nem tanto…

Por mais que eu não saiba explicar à fundo (pois meus conhecimentos matemáticos são, de fato, limitados) eu sei que 2+2=4 e que há alguma explicação racional por trás disso, a qual ninguém nem ousa contestar.

Não por falta de vontade né, mas porque 2+2=4 e ponto.

Agora, (indo direto ao ponto) uma união formal de casal (lê-se casa/mento), por exemplo, eu já não diria que é uma norma imposta pela natureza.

Tem como impedir que aconteça? Escolher como e quando? Tem uma explicação lógica incontestável? Não.

Não, não é algo natural, que deve realmente acontecer simplesmente porque é assim que as coisas funcionam.

Essa é uma norma imposta pelo homem, digna de contestação e reflexão. E digna de interpretação também, na minha opinião.

Vamos lá, o que casamento significa pra você?

a. Juntar as escovas

b. Fazer uma bela cerimônia

c. Assinar um papel

d. Usar um anel

e. O enfrentar os desafios do tempo + dia-a-dia de um casal que curte a companhia um do outro

Todas as alternativas acima são corretas, você é livre pra escolher aquela que mais te representa.

Mas | eu | vou de e.

Pra mim, o significado de casamento depende do contexto, e, na minha opinião, significa escolher conscientemente abrir mão da minha individualidade para compartilhar uma parte do meu ser com alguém que eu amo, e ser grata por essa pessoa escolher se compartilhar comigo também.

É se adaptar, aceitar as diferenças, abraçar as vulnerabilidades, aproveitar a companhia, torcer pelas vitórias, superar o desafios, dar e receber amor. Do outro, pelo outro.

Para mim, não é sobre uma regra, uma ordem, um momento único que nunca vai voltar, algo que só acontece uma vez na vida.

Pode até ter uma ínfima parte minha que ache isso também (somos todos complexos ok). Mas, com certeza – para mim – não é majoritariamente sobre isso.

Eu, pessoalmente, tenho a sorte de viver um casamento com alguém querido há muito tempo, e não preciso de uma data no calendário ou um papel oficial para me dizer se sou ou não “casada”.

Sim, tá tudo mais do que muito bem precisar de uma data, querer ter uma cerimônia, achar que vai mudar algo depois do dia marcado. Acho lindo! Um dia eu também vou querer celebrar a minha união.

Mas só porque sim. Para me divertir, porque estamos afim.

Não pra seguir uma ordem, não porque é assim que tem que ser, não porque existe um relógio invisível contando um tempo supostamente limitado.

O que significa 10 anos se a vida acontece todo o dia?

Não curto falar muito sobre esse tema – principalmente em primeira pessoa – porque tem gerado bastante polêmica com os meus familiares nesse momento de pressão rs, mas sinto que preciso expressar minhas ideias porque pode ter outros aí como eu questionando essa história de ordem, e “tá na hora” e blablabla – quem disse que não vou ter filhos antes de “casar”?

Às famílias, parem de pressionar os cosanguíneos. Parem de dar tanta importância à algo que, no final das contas, o dia seguinte é só o dia seguinte! Eu sei que é porque você quer viver esse momento, mas haja paciência aí

À você que escolheu a alternativa e, continue seguindo suas próprias regras. Faça o que/quando tiver vontade, da forma que achar melhor.

À quem escolheu a/b/c ou d, você está certo e seja feliz! Siga sua visão de mundo e tenha uma vida linda ❤

Porque no final das contas, a beleza do casamento ser uma instituição criada pelo homem é a (via de regra) liberdade de escolha. Seja lá qual for a sua opção, eu vou comemorar junto contigo e me sentir realizada por você estar realizado

Agora, quando se tratar da minha liberdade de escolher, eu exijo o meu direito de exerce-la.

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Será que um dia vou mudar de opinião? Curiosa.

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Foto: Sardenha, Itália

O sabor de caminhar com as próprias pernas

O sabor de caminhar com as próprias pernas

De não ser filho de ninguém

De não conhecer alguém

De se meter em uma área que se tem um total de 0 contatos

Ninguém pra pedir conselho, ajuda, indicação.

O sabor de não ganhar nada na mão.

O sabor de não ser fácil, de se sentir pra trás, incapaz

O sabor de um pão no débito e outro sonho no crédito

Meu Deus, o sabor de construir algo sozinho.

Com a força da mente, um coração intensionado, e uma paixão ardente.

O sabor de não sossegar por menos, de se virar nos 30, de chorar mas aceitar

De trabalhar incansavelmente, e seguir em frente.

Que privilégio ter passado tanto perrengue!!!

Quem também sente?

O. sabor. de. crescer. no escuro. é. inigualável.

De ninguém, na intimidade, realmente saber o struggle de verdade

E então, de chegar o momento, olhar pra trás e ver a distância percorrida

A minuciosidade com que a obra foi esculpida

A grandiosidade do que se foi criado aqui dentro

A beleza de ser um só com a vida

O orgulho de ser o artista

O momentum de sentir o art de vivre no canal

Meu Deus, o gosto de construir com as próprias mãos,

pura e simplesmente,

é realmente opulente.

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Foto: Paris, França.

Um convite ao dinamismo

Já morei em diversos lugares – fisicamente, e mentalmente.

Já vi, já conheci, e já senti muita coisa que só quem nunca sentiu não sabe como é. Carrego uma bagagem que só eu sei a quantidade absurda de itens que nem cinco mochilas conseguem comportar. É história, atrás de história, atrás de…

Não sei, devo ter feito um pacto comigo antes de nascer. Desde que me conheço por gente carrego uma máxima pra onde quer que eu vou: estou aqui para viver experiências. Isso é meu leme, meu guia, meu barco, meu passo.

It’s all for the sake of it. Todas as minhas escolhas e decisões são pautadas em cima disso.

Eu me recuso. A viver uma vida só. Durante uma vida inteira. !!!!

Pronto falei. Não faz sentido e quem concorda respira.

Tá, tudo bem, quem não concorda pode respirar também. Mas eu te aconselho fortemente a concordar.

Porque a gente não desceu no tobogã pra viver 10 dias, 1 mês, 2 anos, 10, 20, 60, 100 anos e ser a mesma pessoa até a hora de voltar, galera. Sério que ceis não acham?

Na minha (realmente humilde) opinião, não tem roteiro, não tem ordem, não tem certo, não tem errado. A beleza está em cada um viver a vida do jeito que achar melhor e no fim do dia todo mundo se reunir pra tomar uma cerveja e comemorar a liberdade.

Já entendi que meu objetivo ao longo dos anos é fazer a minha presença neste planetinha água ter significado, e deixar valores aos meus próximos em gratidão aos que foram deixados a mim por quem pisou aqui antes. Sei que aprendo muito com cada pessoa que eu me relaciono, e acredito que o nosso pão de cada dia se encontra exatamente nesta troca (seja ela boa ou ruim hein).

Já entendi que eu quero sim deixar um legado, e ele basicamente se resume na frase “Viva experiências“. As que você quiseeeeer, pra mim realmente não interessa. Só viva, se permita sentir tudo e ser alguém novo nos pequenos detalhes de cada dia. Procure estar constantemente se reinventando (se enxergando com novos olhos), e se abrindo para as possibilidades que florescem a cada respirada profunda na barriga.

Pronto, tá escrita a carta pros meus futuros filhotes. Se eu morrer antes alguém imprime esse parágrafo e entrega pra eles por favor? (sério)

Você não é meu filho (grazadeus senão já ia ganhar umas chineladas só pra ficar experto)* mas o parágrafo acima também se aplica a te. Sim, hoje a tia veio sincerona e com um recadinho importante pra todo mundo: tá liberado viver uma vida dinâmica!

Tá liberado casar só depois de ter filho (eu quero!), morar de aluguel na adulcência, se mudar 256 vezes, comprar uma casa só aos 50 anos, ser fã de Luiza Sonza (desculpa, esse não tá não), mudar de profissão 7 vezes… sei lá, meu anjo, você que escolhe. A vida é suaa, olha que demais!

Eu nem consegui me secar hoje direito porque esse texto brotou na minha cabeça no meio do banho e eu tive que sair correndo pra começar a escrever (sim, é assim que o grande processo criativo do Abre a Janela acontece).

Os textos vêm quando a vida tá me dando um sinal de vida, mas talvez também tenha sido ela materializando algo pra você ouvir isso hoje, será que não? Ouçam a palavra do universo, irmãos.

Falando sério agora, eu não quero ter esquecido de secar minhas costas e molhado a casa inteira à toa. Não estou aqui pra falar de mim, mas pra nos lembrar que nada é/precisa ser estático ou roteirizado. Retire algo de valor, pense naqueles sonhos que ficam só debaixo do travesseiro, olhe pra sua zona de conforto, e… na moral…. mete-lhe um pé na bunda da dixgraçada.

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*PS: não dou chineladas em ninguém e sou completamente anti-violência, que fique claro. A frase tá ali só para humor e já to pensando em mudar também mas vai acabar ficando assim, aceitem

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Foto: Antibes, França.

Nota baixa no boletim

*Vamos lá… iiiinspiiiirooouuu…. e reeesss…já pirou.*

Poffttt (som de alguém jogando algo pesado no chão)

“EU NÃO SEI PORQUE AINDA VENHO NESSA TERAPIA!!! Parece coisa de louco isso aqui. Tô pagando pra tu resolver meus problema pô! Em vez disso tu tá me mandando respirar? Porra, Jones!”

“Por quê você está se sentido com raiva?”

“Sei lá, tu que tem que me dizer. Eu já venho aqui há 12 anos, tu sabe todos os detalhes da minha vida. Me diz o que tá acontecendo comigo!”

“O que você acha que está acontecendo com você?”

“Cara. Eu não quero nem saber o que tá acontecendo comigo. Eu só quero que isso pare. Que essa coisa horrível que eu sinto O TEMPO TODO suma, e que eu consiga tomar um breja de boa sem me preocupar com nada.”

“O que é essa coisa horrível que você sente?”

“Porra Jones, não sei irmão. É uma parada pesada, tá ligado? Começou quando entrei na facul de contabilidade, e desde então essa porra não me larga mais. Eu consigo viver de boas, pá, mas se eu paro pra pensar a minha mente me tortura. É culpa, tá ligado. Raiva. Ódio.

Quando eu vou pro Jiu, parece que nada mais importa. Me sinto numa paz, mano. O tempo voa, eu me divirto com a galera, ensinando a molecada a dar uns golpe maneiro. Eu amo essa porra, velho. Sinto que eu sou bom no que tô fazendo ali, sabe?

Esses dias ganhei um prêmio de professor revelação de um campeonato brasileiro. Eu trabalho voluntário com crianças carentes, tá ligado? A meninada se amarra, eu me divirto, e no fim a aula acaba sendo top!

Mas quando eu vou pro trampo tudo muda, cara. Me sinto um bosta, fazendo coisas bosta, pra ver um dinheirinho meio bosta cair na conta no final de mês.

Eu não quero mais isso, mano. Cansei dessa porra! Não sou feliz no trampo.”

“E o que você vai fazer em relação a isso?”

“Eu? Ué, nada né. Eu tô tentando resolver um problema agora, que é esse sentimento maldito de tristeza dentro de mim. Não tenho tempo pra sair da contabilidade e viver a vida dos sonhos trabalhando com o que eu amo.”

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No dicionário, problema é:
1. assunto controverso, que pode ser objeto de pesquisas científicas ou discussões acadêmicas.
2. questão social que traz transtornos e que exige grande esforço e determinação para ser solucionado.

Assunto controverso… questões sociais que trazem transtornos. Transtorno de rota? Ou seria questões controversas sobre assuntos sociais (?)

Quando estamos na escola, o professor mede o resultado de uma aluno de acordo com a sua capacidade de resolver problemas ou questões em uma prova. Quanto mais perguntas o aluno conseguir responder, maior a sua nota.

Não que eu seja muito a favor desse sistema de provas, mas no final ele acaba sendo uma mímica da natureza de ser um ser humano.

E atire a primeira pedra o adulto que não continua tirando nota baixa em várias provas ao longo da vida. Eu ouvi todos nós?

Tô vendo até meu boletim escolar de 2021:

*capacidade de focar na solução de (insira um desafio específico aqui): nota 0.

Mas a verdade é que encontrar a solução é simples, basta a gente se estudar. Tudo tem resposta, se fizermos as perguntas certas (ou começarmos com uma pergunta pelos menos), e nos esforçarmos pra respondê-las. E aceitar as respostas.

E você, o que vai fazer em relação a isso?

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Foto: Queenstown, Nova Zelândia.

Mademoiselle

Sete mulheres encontravam-se na varanda de uma casa branca de madeira. Uma delas disse: “Silêncio, tenho uma coisa a anunciar!”.

Silêncio.

“O que foi?”, perguntou Madame. Madame era feia que só vendo, não sabia cantar e quase nem respirar. Tinha pinta na orelha e cintura de camelo. Mas era filha do pastor da vila – o dono da coisa toda – então era muito cortejada e havia diversos pretendentes correndo atrás de si.

Madame havia nascido prematura. Quando sua mãe deu à luz, não sabia se quem vinha era homem ou mulher, e por isso não sabia nem o nome. O pai queria mulher.

“A partir de hoje, vou virar selvagem!”, respondeu Syrlêi.

“Selvagem como uma noite de super lua.

Vou destruir minhas amarras ao passado, minha pose de boa-moça. Na escola, aprendi com meus pais que é importante ser educada e agradar o moço, usar o guardanapo no colo, cumprimentar quem eu não quero e não ouvir conversa de adulto.

Mas a vida… qual é o sentido? Se não tem nada lá fora, a quem eu estou tentando agradar além de eu mesma?

Será que é educado ser educada, ou será que o educado é falar o que pensa? Ser autêntica. Concordar pra agradar ou concordar em discordar?

Por quê será que nos é (mal) educado que ser educada é o educado?

A partir de hoje, vou virar selvagem.”

Shivete não gostou do que ouviu e achou que a moça tinha ficado é louca. Levantou-se do tapete de palha estendido no chão e pôs-se a gritar:

“Onde já se viu uma moça como você agora querer se rebelar! Tem tudo que deseja, o privilégio de vir de uma origem abastada, comida, água, roupa passada e vinho nos finais de semana até às 20h. Tem gajos que correm atrás e andam de joelhos à Marte para lhe fazer feliz. Ingrata! Ingrata!”

“Ingrata! Ingrata!”, gritou Shivane e Shufiane, enquanto Soymar e Soylar apoiavam a amiga cantando versos de chamamento à Feminidade.

O grupo encontrava-se divido em três mulheres para cada lado da discussão. A única que não havia se manifestado era Madame.

Após uns instantes, a filha do pastor pôs-se a suspirar. Entendia a selvageria de Syrlêi, mas vivia as crenças de Shivete. Em um mundo onde se aprende a ter o externo como referência, viver uma vida conforme nossos credos pessoais é um desafio que só os bravos se poem a encarar.

E encarar novos desafios significa estar disposto a se tornar uma nova pessoa. Romper com o conhecido do passado e se abrir para um futuro incerto, quebrar padrões de comportamento e pensamento e, muitas vezes, frustrar as expectativas sobre nós não-justamente postas por aqueles que nos cercam.

Eu acredito que ser selvagem significa ser mais de si mesmo. Significa não ser quem você está sendo para se tornar quem você realmente é, independente de gênero, idade ou etnia, sendo a intensidade de conexão e consciência que um possua com seu próprio ser o único fator limitante do nível de selvageria a ser vivenciado.

Madame nasceu aprendendo a não falar de boca cheia e sentar de coluna ereta, ir na missa todo domingo e guardar o sábado, em vez de engolir antes de falar e cuidar da postura, ir na missa quando tiver vontade e rezar como achar melhor. A moça se contentava com o mínimo e se sentia na obrigação de estar satisfeita com isso, sentindo a culpa de ser grata mesmo sentindo faltas.

“Ingrata!”, gritou Madame.

“Ingrata eu sou de não aceitar a selvageria que existe em mim e a pulsação que me leva a me tornar mais de eu mesma. Ingrata eu sou de não honrar aquilo que me faz ser única no mundo – a minha essência. Ingrata eu sou de não me agarrar à coragem que me instiga a deixar de ser só um corpo para se tornar um campo elétrico de vibrações, a deixar de ser Madame”.

Por fim, virando-se para Shivete, Shivane e Shufiane, gritou: “Ingratas!”.

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Foto: Ghent, Bélgica.

Piadinha de mau gosto

Rosas são vermelhas, violetas são azuis, hoje eu acordei, puta revoltuis.

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Não é todo dia que se acorda dançando pelo bosque em um dia ensolarado ao som de belos passarinhos, flutuando sob uma brisa leve matinal e com cheiro de café quentinho.

Tem dias que se acorda em um belo dia ensolarado com café quentinho passado, um passarinho ou outro cantando lá fora e uma brisa leve matinal – mas emputecida. Não se quer nem saber de dançar pela casa quem dirá pelo bosque. Parece que há um piano sendo carregado nas costas e não se acha força nem pra levantar o braço e pegar uma xícara sequer.

5 minutos sentado 5 minutos deitado. “Bora trabalhar” se resume à “bora scrollar” que se resume à “bora deitar e vegetar”

Forças obscuras do além fazem o favor de prestar uma visitinha na vizinhança da mente e ficar brincando de batata quente com a gente.

Ou será que a gente brinca de batata quente com nós mesmos?

O fato é que Mario acordou com vontade de socar o armário e sair gritando pela rua como se não houvesse amanhã.

Cansei, diz ele. Cansei dessa palhaçada chamada Mario. O autoboicote é real e ele tá ai, cai mesmo quem não quer.

O que será que dias emputecidos querem nos ensinar? Porque, assim, sabemos que não somos pessoas puta revolts. Em geral, gostamos – e muito – de dançar bosque à fora. Mas em dias como estes parece que nada faz sentido e só o que queremos é jogar tudo pro ar e sair correndo pra se encolher em um banco aleatório na baia de Hobart.

Mas agora, depois de -verdadeiramente- sentir toda essa revolta, eu tenho um palpite: piadinha de mau gosto. Neste caso, uma puta piadinha de mau gosto do universo. Tão grande que consigo imaginar perfeitamente esse cosmos rindo da minha cara, com a barriga doendo de tanto rir e ficando quase sem ar de tanta gargalhada.

“Só pra sentir o gostinho”, diz ele. “Mas ainda não”, conclui.

Puta piadinha de mau gosto, se eu te contar você nem vai acreditar.

Porém entretanto todavia e contudo, depois da tempestade sempre vem a calmaria. Bola pra frente, corre que da próxima vez é pra comer o prato todo em vez de ficar só na vontade.

Corre que lá trás vem gente, mas não esquece de desviar.

Se você, assim como eu, um dia já teve o claro sentimento de que o universo estava pregando uma peça com a sua pessoa e te fez se sentir protagonista de uma grande piadinha de mau gosto, saiba que… é nóis.

Mas saiba também que por traz de toda peça de teatro sempre tem uma narrativa, uma espécie de moral. Tente absorver toda a sabedoria que seu coraçãozinho aguentar, e aceite o fato de que o universo tem sim o poder de te colocar na posição de batata dentro do joguinho do quente. No fundo, é só uma didática alternativa de nos fazer maiores ainda e nos levar ao próximo nível de joguinho com mais, digamos assim… classe.

Mais experientes.

Não, não tente se vingar da jornada nem de ninguém a sua volta. Essa não é a mensagem. Assim, desatrelado ao sentimento de vingança, a mensagem que fica é:

um dia da caça, e outro do caçador.

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Foto: Estocolmo, Suécia.

Sorte existe?

Só eu sei

O que eu passei

Pra chegar até aqui.

Pra chegar? Aonde?

Rosto bonito, quem vem lá. Carrega um saco de areia e um pilão pra moer semente de mostarda.

Parece que nada faz sentido até sentir.

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Era um dia frio de inverno, porque tudo começa em um dia quente de verão. Quatro da manhã, toca o despertador e ela atende a campainha. “Olá?”

“E aí, já acordou?”

“Acordei agora. Como posso ajudar?”

“É hoje, abre a porta que a sorte chegou.”

Dona Sorti entrou com tudo pela porta. Toda esbelta e elegante, vestia um casaco de pele de morcego e brincos de diamante 8 quilates. Um raio de sol refletia em seu par de orelhas, mostrando que aquela mulher não era qualquer senhora.

“Bon jour mademoiselle, hoje é seu dia de sorte”, disse a velha enquanto levantava os braços e encarava a janela atrás da anfitriã.

Persiene, sem entender nada, serviu-lhe uma xícara de chá e, abismada, permaneceu calada.

Dona Sorti então começou a caminhar pela casa, observando tudo como quem não quer nada. Mexeu aqui, vasculhou ali, abriu todas as gavetas do cômodo até encontrar o bendito documento.

“Aha! Aqui está seu presente!”

A velha então mostrou a Persiene um anel de pedra-sabão que retirara de uma caixinha no fundo do armário da TV. Era pesado, mas o sentimento ao colocá-lo em seus dedos era de leveza e alegria.

“Estava aí o tempo todo?”, perguntou a moça.

“Sim. E não.”, disse a Dona. “O meu presente sempre esteve guardado aqui, mas você nunca iria encontrá-lo pois estava fora do seu campo de visão.”

Sorti então começou a explicar porque Persiene nunca teria enxergado o anel se não tivesse ficado tanto tempo sem ele. Andando de um lado pro outro de forma animada e espalhafatosa, a velha lecionava à jovem quão importante e essencial foi a atitude da moça de assumir responsabilidade.

“O meu papel”, disse ela, “é servir como uma justificativa para aqueles que não tem nenhuma para dar em troca, e presentear aqueles que têm”.

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Era um dia frio de inverno, porque tudo começa em um dia quente de verão. Quatro da manhã, toca o despertador e ela atende a campainha. “Olá?”

“E aí, já acordou?”

“Acordei agora. Como posso ajudar?”

“Senhora, temos uma reclamação no condomínio. Seu cachorro fez suas necessidades no tapete do vizinho novamente.”

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Foto: Sydney, Australia

Entrevista de Emprego

“Então, Cleiton, conte-me mais sobre você.”

“Hmm, o que o senhor quer saber?”

“Quem é você?”

“Como assim quem sou eu?”

“Ué, qual seu nome? Idade, sexo, endereço. Hobby! Tem hobbies? O que você faz no tempo livre? Na verdade eu não ligo, por que você se inscreveu nessa vaga?”

Porque eu tenho 20 e poucos anos sem dinheiro falido pobre vivendo à custas de vento querendo ter um padrão de vida do chefe dessa empresa que é filho do dono da empresa e que saiu da fralda ganhando 20 mil reais por semana?

“Então, Cleiton, conte-me mais sobre você. Quem é você e por que se inscreveu pra essa vaga?”

“Tirando o fato de que eu não faço ideia de quem eu sou ou do que eu gosto e encontrei essa vaga no google com o título “salário promissor”, eu amo os valores dessa empresa e me identifico muito com a vaga. Sou trabalhador, homem honesto, dedicado e acredito ser o candidato ideal para o que o senhor tá procurando.”

“Cleiton, queremos saber se o seu perfil está alinhado com os planos da empresa e se há realmente um futuro pra você aqui dentro. Aonde você se vê daqui 10 anos?”

Olha moço, o senhor tá achando que eu sou o quê? Mãe Dináh? O brasileiro não tem um dia de paz e você tá me perguntando aonde eu me vejo daqui 10 anos? No fogo do inferno se tu me fizer pensar sobre isso.

“Ah! Daqui 10 anos eu me vejo trabalhando na ONU como Agente de Paz no Uzbequistão, ou sendo CEO de uma grande empresa, como o Facebook, sabe?”

“Legal, Cleiton! Parece estar alinhado com as pessoas que estamos procurando mesmo. Só tenho uma dúvida: aqui na sua Carta de Motivação, quando se inscreveu na vaga, você disse que estava ansioso para trabalhar como contador, mas nós somos um escritório de advocacia. Queria entender, houve algum engano?”

PQP. Que merda! Eu sabia que não deveria ter usado a mesma carta de motivação pras 500 vagas aleatórias que encontrei na internet. Como fui achar que mudar só o nome da empresa iria ser suficiente? Estagiário FDP que não tinha nada pra fazer e leu minha carta com calma. E ainda avisou o chefe!!

“Nossa, senhor, me desculpa. Deve ter escrito por engano. A verdade é que estou extremamente ansioso para trabalhar 12 horas por dia como advogado júnior ganhando 1.000 reais sem vale transporte nem vale alimentação assinando petição e levando cafézinho pro senhor! Quando eu começo?”


Quem somos nós e porque nos inscrevemos em vagas? Quem sou eu?

Eu achava que era A, mas agora acho que sou B. Queria ser A, tentei, mas algo me disse que eu queria ser B. Tentei ser A por um tempo (e fui), mas não me imaginava sendo A daqui 10 anos.

Daqui 10 anos, ser B parece bem mais legal. Eu sempre quis ser B, será que vou esperar 10 anos pra me torna-lo?

Nada impede que a crise venha depois, mas, na maioria das vezes, a crise dos 20 e poucos anos – que começa nos 17 – é doida e sorrateira. Por um momento, a gente consegue ignorar e fingir que nada tá acontecendo, mas de repente ela vem que nem um furacão derrubando tudo que tá na frente: que que eu quero fazer da vida?

Independente da renda financeira, cor de pele, ou gênero. mesmo se em diferentes nuances e às vezes com tópicos ou temas diferentes, todo jovem adulto enfrenta internamente essa crise.

Eu acho que só há uma maneira de enfrentá-la: Encarando-a. Aceite, viva, sinta, se questione, descubra!

Antes da pergunta brotar, a gente começa a perceber a infinidade de opções que se existe pra fazer da vida. É tanto, mas tanto trabalho diferente e maluco que existe por aí, que a gente fica mais perdido que barata tonta. Mas e se eu NÃO quiser fazer nada da vida?

É louco também dar um shift e mudar de vida totalmente. Quanto mais cedo melhor, mas nada impede que isso aconteça quando eu tiver 56 anos.

Na-da impede.

Não vou nem continuar pra não te deixar doido. Mas isso é coisa de se ficar maluco. Provavelmente terão mais textos como esse, mas por enquanto vamos todos compartilhar a dor do Cleiton de passar por mais um entrevista de emprego com a pergunta: por que se inscreveu pra essa vaga?

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Foto: Ghent, Bélgica.

Esconde-Esconde

Sentimentos escondidos,

Hoje eu me peguei pensando sobre sentimentos escondidos. Aqueles que moram nas profundezas do coração, nas águas mais turbulentas e difíceis de navegar.

É lá que ficam as memórias, sentimentos, e emoções que não quero pensar. Nem sentir, nem me emocionar. No dia-a-dia eu não sinto, nem choro, nem rio. Apenas esqueço e tento não lembrar.

Sentimentos escondidos. Como o tempo é relativo?

Dois flamingos caminhavam no deserto em busca de água. Depois da ninhada, o bando iniciou sua jornada em direção ao lago para alimentar seus filhotes. No meio do caminho, dois flamingos se conheceram. Um percebeu o outro no meio da multidão, e seus olhares se cruzaram. Foi o que bastou. Mil sentimentos floresceram

História turbulenta. Final feliz? E o tempo levou…

E o tempo passou. Sentimentos escondidos, de onde vem e porque se escondem? É proteção? Indiferença? Escrevi mil cartas e nenhuma delas me trouxe uma resposta,

Ah, essas emoções que se escondem. Eu daria tudo pra ter um momento de conversa e entender o que elas tem a dizer. Iria eu gostar? Me decepcionar? Ter a certeza que é o que parece ser?

Vamos dançar enquanto é tempo.

Tempo… será que dá tempo? Falta quanto tempo?

Se é que um dia vou ter um momento de conversa com o tempo. O que ele quer me dizer?

Já sei a resposta mas não quero ouvir. Vou fingir que é outra coisa e curtir o sentimento que essa imaginação me traz

Se não tenho vou fingir que tem

Sentimentos escondidos? Quais dos seus apareceram?

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Foto: Céu de Kalibo, Filipinas