ABRE A JANELA

Escrever… ato ou efeito de manifestar uma inquietude construtiva, um grande desconforto ou um verdadeiro e longo sorriso torto.

Porque existir é viver uma vida bem sentida.

por Diana T. Sposito

Vita, vite e speranza

Ughh… é difícil falar. Foi importante, sabe. É importante, é algo que a gente não consegue esquecer. Tem sempre quem diga “um por todos e todos por um!”, mas às vezes não é assim que eu me sinto. É como se eu tivesse em uma sala vazia sem chão nem parede, num breu escuro e sem som. Luto por mim, por todos, mas também por nenhum. Por quem eu realmente luto? 

Pensei várias vezes que fosse ficar só, mas aí Speranza chegou e se acomodou. Pediu um café, me deu um abraço, e sussurrou: “quer um pedaço?”

Ela é tão forte e… determinada… Afff, difícil de explicar.

Eu queria ser ela. Como – ela. Esses dias ouvi dizer que durante uma forte chuva lá no leste, ela pegou seu barco à remo e foi andando em direção oeste para buscar todos aqueles que se afundaram na correnteza do rio oceânico.

Menina, o negócio era tanto que ninguém se arriscava a sair de casa. O boato era que seu João havia aberto a torneira da cidade e deu vazão às fofocas da vizinhança. Dona Clotilde tava separada, Márcia casada, Sineide nem pensava em ter filhos e Claudinei tinha se mudado pra Terra de São Nunca, e nunca mais o tinham encontrado. Era um alvoroço, o povo tava todo se sentindo no poço. 

Sabe o que me disseram? Que não pagaram as contas da cidade, e que seu João havia aberto a torneira da calamidade. Era pão pra todo lado, caminhão vendendo fiado, uma verdadeira bagunça. O cachorro do seu Zé tava com as orelha em pé só esperando a hora de jantar e… nada! Nem uma comidinha deram pro coitado.

Olha, disseram que ficou tudo no pior estado. Não conseguiram mais fechar a torneira aberta, e ela jorrava até não poder mais. Uma verdadeira fonte de tristeza. 

Mas pensa que ela se abalou? Ela não! Ela nunca! Pegou o seu remo de prata, reuniu a galera na praça, e gritou em alto em bom som: “QUEM VEM COMIGO?”

Mulhé… nem o seu Zé. Nem o moço do cachorro-quente, nem a dona da mercearia, nem o ex-marido da Clotilde, aquele preguiçoso! Ninguém quis se juntar à ela e ir salvar os pobres coitados que, na correnteza do rio oceânico, por lá se afundavam.

Olha que eu iria, hein! Quer dizer… assim… convenhamos… é um pouco arriscado né, a gente pegar o nosso barquinho, de madeira, sabe… bem fraquinho, feito há uns 10 anos atrás. Porque assim, foi o meu pai que fez, e eu confio nele, mas ele não era mecânico nem nada. Nem engenheiro, nem formado em direito, nem capitão da marinha. Ele não sabia pilotar barco algum, mas os idolatrava. Tinha uma paixão por aquela coisa, sabe, de estar na água, curtindo o barato, todo molhado. Coisas que só ele entende, mas era lindo de ser ver. Ô homem feliz!

Mas pensa que ela se apegou? Ela não! Ela nunca. Ela nem ligou. Falou “Ah é, então tá! Eu me vou.” Ela que não ia deixar o povo se afogar naquela corredeira trazida pela jorradeira da torneira.

Porque ela é assim. Mulher do povo. Mulher de Deus. Só não é mulher de um homem só né, mas aí quem é que é

E hoje ela tá aqui. Do meu lado. Com cheirinho de café passado.

Daqui a pouco segue viagem, mas por enquanto ainda sinto sua coragem.

É que não é sempre que Speranza dá a graça do seu ar, por isso preciso aproveitar. Porque a presença dela me faz ter vontade pra continuar o que quer que eu precise terminar.

Quem sabe um dia ela venha pra ficar.

*Mulher forte, novembro 2022. Editado

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Foto: Ruta de los 7 Lagos, Argentina

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