ABRE A JANELA

Escrever… ato ou efeito de manifestar uma inquietude construtiva, um grande desconforto ou um verdadeiro e longo sorriso torto.

Porque existir é viver uma vida bem sentida.

por Diana T. Sposito

Fracassos, ou ponto de vista?

Alguma vez você já parou pra pensar quão grande é a sua lista da fracassos?

De vez em sempre eu penso na minha.

Ela é gigante, parruda, assustadora. Uma retrospectiva infeliz de toda uma trajetória falha.

Esses dias precisei adicionar um novo fracasso a ela, e foi uma m*rda.

Encara-lo, anota-lo… por que caraio mesmo que eu tenho uma lista com todos os meus fracassos????

Ah, lembrei. Ta bom, vamo lá.

Porque toda vez que eu sento para anotar um fracasso,

Eu também paro pra pensar

Será que isso não foi um sucesso?

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Era pra ser um dia super feliz.

Estava numa viagem com as mulheres da minha família na missão de encontrar o vestido de casamento perfeito para minha irmã gêmea.

Recebi a notícia pela manhã e tive que passar o resto do dia engolindo o choro. Meu coração estava em pedaços, mas nada iria estragar a alegria de viver aquele momento.

Não falei nada pra ninguém e me esforcei pra manter a pose intacta até chegar a hora de deitar na cama, quando coloquei a cabeça no travesseiro e passei a noite inteira chorando sem parar.

Na angústia de uma impotência terrível e de um fracasso completo.

Acontece que, alguns meses atrás, eu me encontrei fazendo a curadoria de arte de uma das maiores lojas de mobiliário alto-padrão de São Paulo.

Nos anos anteriores, eu havia fundado um projeto de galeria de arte e, depois de um longo trajeto e uma sequência infinita de falhas (mas de belíssimas exposições, diga-se de passagem), o universo decidiu me dar mais uma chance e cruzou o caminho dessa loja com o meu.

Tipo assim… obrigada universo? Seria isso um sonho?

(Pior que) Não. Era real!

A proposta era algo inimaginável, que poderia mudar minha vida por completo. Simplesmente todas as franquias dessa marca pelo Brasil + todas as lojas deles de São Paulo iriam encomendar as obras de arte comigo.

Eu ganharia uma autoridade, e era bem provável que diversas outras lojas de mobiliário alto-padrão também me procurassem depois do lançamento porque, acreditem, essa marca que o universo me trouxe É A referência de mobiliário no mercado.

Fiz toda a curadoria de arte pra eles. Durante meses, selecionei as obras, negociei com os artistas, fui pra São Paulo fazer reuniões, visitei fábricas de quadros, aprendi a fazer blocos 3D, várias pesquisas, precificações, montei planilhas e fiz absolutamente tudo que estava ao meu alcance pra entregar o melhor resultado possível a todas as partes envolvidas.

Foi uma trabalhera do cão, mas muito divertida.

E deu certo. Havíamos decidido as obras, eles estavam felizes com o resultado e, ao que tudo indicava, havíamos fechado negócio.

Enviei de volta as planilhas preenchidas, com os valores acordados, informações dos quadros para colocarem no catálogo etc etc e dei início aos testes de impressão.

E aí, nesse momento… eles sumiram.

Como num passe de mágica, pararam de me responder. Nunca tinham tempo pra me receber nem retornar as minhas mensagens. Simplesmente, evaporaram do (meu) mapa.

Até dois meses depois, na manhã do dia que minha irmã encontrou o vestido de casamento perfeito pra ela, recebo uma mensagem da marca dizendo apenas que não iriam mais dar seguimento à curadoria.

Sem nenhuma explicação, justificativa, nem nada. E sem absolutamente ne-nhu-ma outra resposta depois disso.

Carãnnn… foi frustrante. Doeu muito.

Não sei o que aconteceu, só sei que me senti uma completa e grande fracassada.

E já tinha tido tantos pequenos fracassos dentro daquele meu projeto de galeria, que esse (não)evento da curadoria fez dele um dos maiores fracassos da minha vida até então 🙂

Percebi, por vários motivos, que havia chego a hora de ajustar a rota.

Mas me senti uma completa retardada.

Até esses dias, quando fui adicionar à minha lista o mais novo fracasso do pedaço. Lembrei dessa história e, na hora, me veio um pensamento diferente.

Quemmmm sabe, o maior fracasso da minha vida até então tenha sido um dos meus maiores sucessos também?

Sem equipe, experiência e nem tanto carisma assim, foi um dos momentos que eu mais cheguei perto de ser quem eu sonhava.

De ver o que eu sou capaz de fazer e conseguir entregar diversas coisas que eu nunca achei que conseguiria.

Fiquei até feliz e grata desse evento ter acontecido, veja só!

Teria eu fracassado, ou sido bem sucedida?

No final das contas, acho que fracasso é uma questão de opinião e ponto de vista.

De quê ângulo eu to enxergando essa situação?

Como disse o próprio Thomas Edison quando entrevistado uma vez, antes de conseguir inventar a lâmpada incandescente, ele teve infinitas tentativas bem sucedidas de descobrir, com sucesso, o que não funcionava.

Por isso agora, resolvi adicionar todos os meus fracassos também à minha lista de gratidão.

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Foto: Hong Kong Art Museum, Hong Kong

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