ABRE A JANELA

Escrever… ato ou efeito de manifestar uma inquietude construtiva, um grande desconforto ou um verdadeiro e longo sorriso torto.

Porque existir é viver uma vida bem sentida.

por Diana T. Sposito

Procure o Ouro.

Um belo dia, uma majestosa raposa decidiu sair de sua casa, na região norte da ilha de Java, e partir em direção ao sul determinada a encontrar a galinha dos ovos de ouro, cuja qual tanto ouvira falar quando era menor.

Havia crescido ouvindo histórias e mais histórias de como a galinha era poderosa e seus ovos belos e brilhosos, e naquele dia resolveu sair para conhece-los com seus próprios olhos.

Durante toda a sua vida, a raposa passara cansada. Estressada. Maldito stress, esse, que tanto nos tormenta! Não aguentava mais viver desse jeito e finalmente tomou a decisão de sair em busca da galinha dos ovos de ouro, para assim se tornar poderosa e ser tudo que sempre quisera ser.

Iria sair em busca da paz, da calmaria, daquela brisa leve de verão.

Decidiu ir pro sul pois estava cansada do norte. Nascera, vivera – e agora escapou de – morrera no norte. Cansada do que, exatamente, ela não sabia. Só sentia. Sentia que tinha mais lá pra baixo. Mais vida, mais calmaria, mais paz. Paz de espírito. O que mais, exatamente, ela não sabia. Só sentia.

Encontrar a galinha dos ovos de ouro parecia uma ideia promissora. “Assim que eu encontrá-la, terei alcançado minha meta. Serei feliz, calma, e pacífica. Leve como uma pluma. Ahhhh, o ouro!”

O caminho pro sul era praticamente todo ensolarado. Estava quente demais, mas batia uma brisa leve de verão que deixava o clima bem agradável. Era rodeado de flores e pássaros cantantes. A coisa mais linda de se ver!

Porém, assim que chegou um metro adentro do caminho, a raposa pisou em uma pedrinha e cortou um dos dedos de sua pata. Doeu.

“Mas que saco! Tudo parecia ir tão bem. Eu finalmente tomei a decisão de ir em busca do que eu quero, e agora não consigo mais andar direito. E tem todo um caminho pela frente… não sei se consigo aguentar.”

À noite, fez frio. Choveu. Caiu uma nevasca. E a raposa nem estava preparada pra isso, achou que só fazia calor ali no sul. Além disso, os pássaros haviam começado uma guerra contra um outro bando e agora suas canções haviam se tornado gritos de protesto.

O outono estava chegando, então as flores não estavam mais tão bonitas assim. Estavam caindo e a paisagem começando a ter tons mais escuros e terrosos.

“Esse caminho não era como eu imaginava”, disse ela enquanto atravessava a floresta de Araucárias. “Eu não consigo nem enxergar o que tem na minha frente com essas árvores gigantes atrapalhando a minha visão. Como serei capaz de prosseguir?”

O inverno veio, e com ele temperaturas de -15 graus Celsius. Mais vento e nevasca. O trajeto inteiro havia sido instável, chuvisquento, frio e calor ao mesmo tempo. Às vezes até no mesmo dia.

Nem a nova chegada do verão foi capaz de aumentar os ânimos do animal. Estava agora mais cansada e mais estressada, sem aguentar dar um passo a mais sequer.

“Cadê essa maldita galinha?”, reclamou ela.

E como toda boa história que se preza, no momento em que fez essa pergunta, a raposa avistou a ave parada bem na sua frente. Reluzente e elegante – porém sem o tal dos ovos de ouro.

“Procure-o”, disse a galinha. “Não os ovos, como lhe contaram. Esses há tempo já se foram. Mas o ouro – que é natureza, orgânico, perpétuo. Ele está presente há todo instante. Basta procurá-lo.”

E continuou: “Ao ficar reclamando do corte em uma das suas patas, você, Dona Raposa, deixou de aprender a caminhar com as outras três patinhas que restaram.

Ao se apegar à chuva, você deixou aproveitar a água para se lavar. Quando caiu a neve, em vez de reclamar, você poderia ter usado-a a seu favor, aprendido a esquiar, e acelerado a sua chegada até mim. Deixou de catar as folhas que caíram do outono para preparar um casaco e se esquentar no inverno. Deixou de ouvir o canto dos pássaros enquanto ainda existia, de curtir o verão e apreciar a paisagem.

E chegou até mim cansada, estressada, e de fato sem encontrar ouro algum.

As pessoas não entendem, mas meus ovos são apenas belos, dourados e brilhosos porque é assim que eu os enxergo.”

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Foto: Utrecht – The Netherlands

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