Tem muito barulho para pouco silêncio

Barulhento.

O som do teclado, da música de fundo, da conversa paralela, da cebola na panela. Som de portão se abrindo, de gritaria. Abaixa, por favor. Diminui o som?

Não dá de ouvir nada quando se tem muito barulho ao redor. Como eu vou me ouvir se, só o que eu consigo escutar, é o barulho das ondas lá fora? Ondas, não do mar, mas das inúmeras frequências de som que pairam por aí.

Hoje em dia, não se tem mais paz. Sim, eu sei: A paz é interior e ela mora dentro da gente. Não dá pra encontrar paz lá fora porque ela tá aqui dentro. Porém, ao mesmo tempo, não dá para encontrar paz aqui dentro se eu não tiver um pouco de paz lá fora.

Quando tem muito barulho, tudo fica confuso. Fica difícil distinguir o que é importante do que é só barulhento, distração. Barulho sendo tudo aquilo que parece ser relevante, mas não é.

Por exemplo: Digamos que você está prestes a se tornar mãe, ou pai. Você tem que escolher o nome do seu filho, porque isso é algo importante. Você começa a ler livros e mais livros sobre significados de nomes, mas no fim acaba eliminando todos, pois cada um te lembra de uma pessoa que você não gosta. Faltam algumas semanas pro neném nascer, e você ainda nem escolheu o nome.

“Maria” é nome de aquariana, “Juliana” é de áries, mas minha filha será sagitariana. “Carla” me lembra da vizinha chata que tive ano passado, “Flavia” já é filha da minha amiga. Tô entre “Ciclana” e “Fulana”, mas não consigo me decidir…

A bolsa estourou e o bebê nasceu. Tá na hora de levá-lo pra casa. Quem vai ajudar? Como vou me organizar? Qual quarto ele vai ficar? Tem que comprar fralda? Quem vai ser a babá?

Provavelmente, assuntos – de fato – importantes terão passados despercebidos, pois o foco estava no barulho. No nome do bebê. No que não importa. Sim, é importante que o bebê tenha um nome, mas é realmente tão importante assim qual será o nome do bebê?

Isso é só uma ilustração para a gente refletir. A vida é -cheia- de barulhos, sejam eles de fato um som ou simplesmente pensamentos barulhentos. Que, de tão altos, não nos permitem se ouvir. Se escutar, escutar o que o nosso corpo tem pra falar.

Cada vez mais, eu percebo o valor do silêncio. O valor de escutar só os sons que realmente importam. Parar, escutar os sons naturais ao nosso redor, aqueles que não tem como abaixar, e se permitir escutar os sons que vêm de dentro.

Deixa esses sons falarem e te entregarem a resposta de todos os seus desafios. Tá tudo ali. A nossa alma é sábia. Escuta a velha sábia, o que ela tem pra te ensinar. Deixa o corpo se sincronizar com a mente e, em perfeita harmonia, te guiar para o melhor dos caminhos. Senta, respira, levanta, caminha, dança, respira. Fica em silêncio. Desliga a TV, abaixa o som da música, ouve o som do coração, da respiração.

A respiração traz a resposta de tudo. Mas é tanto barulho, que a resposta se perde pelo ar e a gente nem vê, nem escuta. E fica ali, lutando pra encontrar uma solução lá fora, sendo que é só buscá-la aqui dentro.

Recomeçar, continuar. Rebobinar até o começo. Voltar duas casas e jogar novamente, ou só continuar em frente. Agora eu quero ir pra direita ou pra esquerda? Ambos os caminhos estão abertos, mas qual deles você prefere tomar?

Elimina o máximo de barulho possível, o máximo de pensamento denso e de som barulhento, e segue o caminho que sua respiração te falar.

Entrou o vento suli

Alma livre, leve e solta, feliz e curtindo a vida. Sem apegos, sem amarras. Evoluindo de uma aventura para a outra. Eu que decido a direção do meu barco, mas deixo o vento me guiar e adaptar a minha rota. Até o destino final.

Resiliência. Wanderlust? Não existe destino final, a gente nunca vai chegar “lá”. Toda vez que eu chego em algum lugar, descubro um lugar novo que eu quero chegar. Como eu disse, não tenho tempo pra viver a mesma vida durante uma vida toda. Sem tempo, irmão!

É aquela coisa: o tempo perguntou pro tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo, que não tem tempo pra dizer pro tempo, que o tempo que o tempo tem, é o tempo que o tempo não tem.

Se nem o tempo tem tempo, como que EU vou ter tempo?

A única coisa que eu sei que eu tenho, é tempo para respirar.

A passagem de um ciclo para o outro se chama vazio. E o vazio nada mais é que a ausência de matéria. No vazio só tem ar (eu acho, se não for cientificamente correto, entra na metáfora). E como viver uma vida sem ar pra respirar?

Mas o vazio é louco porque ele claramente indica o fim/início de um novo ciclo. E, principalmente para quem não está consciente disso, dói.

Dói pra todo mundo essas mudanças de plano radicais, mas acho que ainda mais para quem tá dormindo no ponto. Vai tomar um susto quando acordar.

Estar consciente durante o vazio, só respirando, não-tem-preço. É um momento de pura gratidão. Gratidão pelo que passou, pelo que está passando, e pelo que ainda irá passar – Passar -. Já dizia Nx Zero: na vida tudo passa, não importa o que tu faça.

Mudanças de plano inesperadas nada mais são do que adaptações de rota. E elas vão se adaptando de acordo com o que o vento mandar. Talvez aquela sempre fosse a rota, mas se hoje o vento tá mais forte, vai ter que adaptar mais cedo que o planejado.

Se for o vento sul então, corre que em cinco dias o caminho já mudou pro outro lado. Ele continua na mesma direção, mas o trajeto já é outro. É o tal do vento suli, mô kiridu, esse fax côza.

E que bom. Que bom que ele faz coisa. Que bom que ele dá esse empurrãozinho. Vem limpando tudo que tem que ser limpo, e trazendo novos ares, novos olhares, novas aventuras!

De mochila nas costas, vou andando pela vida.

Eu que decido a direção do meu barco, e eu me adapto conforme o vento. Durante o trajeto, vou parando para apreciar a paisagem, explorar ilhas desertas, sentir novos sabores. Refletir, me sentir, me recarregar.

E partir pra próxima!