Tem muito barulho para pouco silêncio

Barulhento.

O som do teclado, da música de fundo, da conversa paralela, da cebola na panela. Som de portão se abrindo, de gritaria. Abaixa, por favor. Diminui o som?

Não dá de ouvir nada quando se tem muito barulho ao redor. Como eu vou me ouvir se, só o que eu consigo escutar, é o barulho das ondas lá fora? Ondas, não do mar, mas das inúmeras frequências de som que pairam por aí.

Hoje em dia, não se tem mais paz. Sim, eu sei: A paz é interior e ela mora dentro da gente. Não dá pra encontrar paz lá fora porque ela tá aqui dentro. Porém, ao mesmo tempo, não dá para encontrar paz aqui dentro se eu não tiver um pouco de paz lá fora.

Quando tem muito barulho, tudo fica confuso. Fica difícil distinguir o que é importante do que é só barulhento, distração. Barulho sendo tudo aquilo que parece ser relevante, mas não é.

Por exemplo: Digamos que você está prestes a se tornar mãe, ou pai. Você tem que escolher o nome do seu filho, porque isso é algo importante. Você começa a ler livros e mais livros sobre significados de nomes, mas no fim acaba eliminando todos, pois cada um te lembra de uma pessoa que você não gosta. Faltam algumas semanas pro neném nascer, e você ainda nem escolheu o nome.

“Maria” é nome de aquariana, “Juliana” é de áries, mas minha filha será sagitariana. “Carla” me lembra da vizinha chata que tive ano passado, “Flavia” já é filha da minha amiga. Tô entre “Ciclana” e “Fulana”, mas não consigo me decidir…

A bolsa estourou e o bebê nasceu. Tá na hora de levá-lo pra casa. Quem vai ajudar? Como vou me organizar? Qual quarto ele vai ficar? Tem que comprar fralda? Quem vai ser a babá?

Provavelmente, assuntos – de fato – importantes terão passados despercebidos, pois o foco estava no barulho. No nome do bebê. No que não importa. Sim, é importante que o bebê tenha um nome, mas é realmente tão importante assim qual será o nome do bebê?

Isso é só uma ilustração para a gente refletir. A vida é -cheia- de barulhos, sejam eles de fato um som ou simplesmente pensamentos barulhentos. Que, de tão altos, não nos permitem se ouvir. Se escutar, escutar o que o nosso corpo tem pra falar.

Cada vez mais, eu percebo o valor do silêncio. O valor de escutar só os sons que realmente importam. Parar, escutar os sons naturais ao nosso redor, aqueles que não tem como abaixar, e se permitir escutar os sons que vêm de dentro.

Deixa esses sons falarem e te entregarem a resposta de todos os seus desafios. Tá tudo ali. A nossa alma é sábia. Escuta a velha sábia, o que ela tem pra te ensinar. Deixa o corpo se sincronizar com a mente e, em perfeita harmonia, te guiar para o melhor dos caminhos. Senta, respira, levanta, caminha, dança, respira. Fica em silêncio. Desliga a TV, abaixa o som da música, ouve o som do coração, da respiração.

A respiração traz a resposta de tudo. Mas é tanto barulho, que a resposta se perde pelo ar e a gente nem vê, nem escuta. E fica ali, lutando pra encontrar uma solução lá fora, sendo que é só buscá-la aqui dentro.

Recomeçar, continuar. Rebobinar até o começo. Voltar duas casas e jogar novamente, ou só continuar em frente. Agora eu quero ir pra direita ou pra esquerda? Ambos os caminhos estão abertos, mas qual deles você prefere tomar?

Elimina o máximo de barulho possível, o máximo de pensamento denso e de som barulhento, e segue o caminho que sua respiração te falar.

Procure o Ouro.

Um belo dia, uma raposa decidiu sair de sua casa, em uma região norte da ilha de Java, e partir em direção ao sul. Ela estava determinada a encontrar a galinha dos ovos de ouro, cuja qual tanto ouvira falar quando era criança. Sua mãe lhe contava histórias e mais histórias sobre como a galinha era poderosa, e como os ovos de ouro eram belos e brilhosos.

Durante toda a sua vida, a raposa passara cansada. Estressada. Maldito stress, esse que tanto nos tormenta! Porém, ela finalmente tinha tomado uma decisão. Iria sair em busca da galinha dos ovos de ouro, para assim se tornar poderosa e ser tudo que sempre quisera ser. Iria sair em busca da paz, da calmaria, daquela brisa leve de verão.

Ela decidiu ir pro sul pois estava cansada do norte. Nascera, vivera – e agora escapou de – morrera no norte. Cansada do que, exatamente, ela não sabia. Só sentia. Sentia que tinha mais lá pra baixo. Mais vida, mais calmaria, mais paz. Paz de espírito. O que mais, exatamente, ela não sabia. Só sentia.

Encontrar a galinha dos ovos de ouro parecia uma ideia promissora. “Assim que eu encontrá-la, terei alcançado minha meta. Serei feliz, calma, e pacífica. Leve como uma pluma. Ahhhh, o ouro!”

O caminho pro sul era praticamente todo ensolarado. Estava bem quente, mas batia uma brisa leve de verão que deixava o clima bem agradável. Era rodeado de flores e pássaros cantantes. A coisa mais linda de se ver!

Porém, assim que chegou um metro adentro do caminho, a raposa pisou em uma pedrinha e cortou um dos dedos de sua pata. Doeu. “Mas que saco! Tudo parecia ir tão bem. Eu finalmente tomei a decisão de ir em busca do que eu quero, e agora não consigo mais caminhar direito. E tem todo um caminho pela frente… não sei se consigo aguentar.”

À noite, fez frio. Choveu. Caiu uma nevasca. E a raposa nem estava preparada pra isso, achou que só fazia calor ali no sul. Além disso, ela também não sabia, mas os pássaros haviam começado uma guerra contra um outro bando e agora suas canções haviam se tornado gritos de protesto.

O outono estava chegando, então as flores não estavam mais tão bonitas assim. Estavam caindo e a paisagem começando a ter tons mais escuros e terrosos. “Esse caminho não era como eu imaginava”, disse ela enquanto atravessava a floresta de Araucárias. “Eu não consigo nem enxergar o que tem na minha frente, com essas árvores gigantes atrapalhando a minha visão. Como sou capaz de prosseguir?”

O inverno veio, e com ele temperaturas de -15 graus Celsius. Mais chuva e nevasca. O trajeto inteiro havia sido instável, tendo chovido, feito frio e calor o tempo todo, às vezes até no mesmo dia. Nem a nova chegada do verão foi capaz de aumentar os ânimos do animal. Estava agora cansada e estressada, e já não aguentava mais caminhar.

“Cadê essa maldita galinha?”, reclamou ela.

E como toda boa história que se preza, nesse momento pode enxergar a ave bem na sua frente. Mas sem os ovos de ouro. A galinha apareceu bem na frente da raposa, mas sem o tal dos ovos dourados, que eram tão belos e brilhosos.

“Procure o ouro”, disse a galinha. “Os ovos, há tempo já se foram. Eles não existem mais. Mas o ouro, ele continua. Ele existe há todo instante, basta procurá-los. “

E continuou dizendo: “Ao reclamar do corte em uma das patas, e se apegar à isso, você, Dona Raposa, deixou de aprender a caminhar com as outras três patinhas que restaram.

Ao se apegar à chuva, você deixou aproveitar a água para se lavar. Quando caiu a neve, em vez de reclamar e se apegar à ela, você poderia ter usado-a a seu favor, aprendido a esquiar, e acelerado a sua chegada até mim. Deixou de catar as folhas que caíram do outono para preparar um casaco e se esquentar no inverno. Deixou de ouvir o canto dos pássaros enquanto ainda existia, de curtir o verão e apreciar a paisagem.

E chegou até mim cansada, e estressada.”

Não procurou o ouro que cada situação lhe trazia. Não procurou o ouro em cada situação que lhe acontecia. Pois saiba que nada é em vão. Tudo acontece em prol da evolução. Desafios são belos, e nos permitem brilhar toda vez que os superamos. Tudo, tem seu lado positivo e enriquecedor.

Basta, sempre, procurar o ouro.

Calcanhar de Aquiles

Era uma vez, Aquiles.

Um homem forte e belo, imponente, majestoso. O herói mais temido por Tróia, protagonista entre os céus e oceanos, dominador, e guerreiro destaque da Ilíada.

Aquiles vivia armado, pronto para qualquer batalha. Se alguém ousasse lhe enfrentar, Aquiles sacava suas armas e derrubava o inimigo no mesmo instante. Ele sabia usar e dominava com perfeição a munição mais poderosa já inventada pelo homem:

Palavras.

Aquiles sabia exatamente o que falar e como falar para acabar com seu oponente toda vez que fosse preciso. Bastava se sentir ameaçado, que palavras mágicas de dor e ofensa saiam de sua boca em direção à ameaça, extinguindo-a por completo em questão de segundos.

E assim ele vivia. Caminhava armado e munido, pronto para ferir qualquer pessoa que tentasse lhe atacar. Ou que ele pensasse que estivesse lhe atacando. Ou que ele interpretasse que a intenção era lhe atacar. Ou que ele sentisse que qualquer movimento estranho, mesmo que irreal, seria um ataque.

A verdade é que Aquiles era frágil e sensível. Nem ele sabia, mas, sem sua armadura, ele não era nada além de um homem comum. Uma pessoa que sente coisas e emoções, pensa, senta, levanta, e deita. Come, bebe, chora, e dá risada. Mas, por algum motivo e em algum momento, ele precisou se defender, e sem ter força física suficiente, encontrou nas palavras a forma mais rápida e eficaz de se proteger.

E, de fato, elas são. Palavras são a arte da guerra. Fáceis, não violentas (tem certeza?), delicadas. Aparentemente inofensivas. Poderosíssimas, palavras tem o poder supremo de destruir tudo e qualquer coisa se assim seu mestre desejar. Falar é uma arte a ser dominada, que pode sim ser usada para o bem, mas na guerra, um discurso bem dado, que incite o ódio e convença os soldados a ferir o inimigo, é peça chave para vencer uma batalha.

“A vida é uma batalha / Tem que batalhar para vencer na vida / Todo dia, uma batalha diferente” – tão conhecidos “ditados” populares. Frases comuns, repetidas por gerações, que refletem como as pessoas enxergam a vida. “Viver” é, muitas vezes, considerado sinônimo de batalha.

E, na vida, todos somos Aquiles. Caminhamos munidos, sem cuidar daquilo que sai de nossas bocas no meio de uma conversa. Sem se preocupar em entender o que realmente foi dito, se feriu alguém, ou se vale mesmo a pena revidar (não, não vale).

Além disso, no jogo da comunicação, toda regra é exceção. Uma palavra ou frase mal interpretada e não bem esclarecida já vira ataque iminente, que requer revidação na hora. E dá-se início ao pingue-pongue: vence quem sair mais ferido da partida.

Aquiles só foi descobrir o real poder de sua munição quando percebeu uma flechada atingir o seu calcanhar, que, por um descuido, tinha ficado descoberto sem a armadura. Acontece que seu inimigo Homero, durante a guerra de Tróia, observou Aquiles treinar sua arte das palavras, e decidiu usar o feitiço contra o feiticeiro. Ao perceber o calcanhar exposto, Homero direcionou as ofensas e escancarou à Aquiles suas falhas, seus defeitos e dificuldades, derrubando-o em um único golpe.

Falar, a arte da guerra. Palavras são lançadas, e palavras são retornadas. O que Homero descobriu foi que, tanto para atacar ou se defender, falar durante a guerra leva à uma batalha sem fim. Homero não sabia, mas toda a vez que se usa o feitiço das palavras em prol da dor, a armadura de quem o lança fica mais rígida e pesada. Perde-se a sensibilidade, o contato com a pele, com as emoções, com a leveza natural da vida.

Ambas as partes saem perdendo.

Além disso, ele descobriu que armaduras feitas de palavras são falhas, pois os calcanhares sempre acabam ficando de fora. Não só o de Aquiles, mas o tendão de qualquer pessoa, por ser o maior tendão do corpo humano, quando atingido, desestabiliza o esqueleto inteiro, abala o emocional e a dor vira visceral.

Palavras constroem, confortam e acalentam. Mas palavras destroem, nutrem a dor e machucam de verdade. Todo calcanhar é frágil e vulnerável, e está exposto aos ataques de Homero (assim como este aos ataques de Aquiles).

Ao cair, Aquiles percebeu que sua armadura de nada o protegia. Então resolveu tirá-la, eliminando todo o peso sobre seu corpo, e conseguindo assim levantar. Tomou um susto, pois, quando levantou, estava maior que Homero. Mais alto, ainda mais forte, belo e poderoso.

Ele pôde finalmente sentir o quão leve é caminhar sem estar munido e o quanto havia dominado errado a arte da fala. Se perdoou por ter deixado seu calcanhar vulnerável todos esses anos, e trabalhou para fortalecê-lo e protegê-lo de outras formas.

E, no final, descobriu nas palavras, a arte da cura.

Entrou o vento suli

Alma livre, leve e solta, feliz e curtindo a vida. Sem apegos, sem amarras. Evoluindo de uma aventura para a outra. Eu que decido a direção do meu barco, mas deixo o vento me guiar e adaptar a minha rota. Até o destino final.

Resiliência. Wanderlust? Não existe destino final, a gente nunca vai chegar “lá”. Toda vez que eu chego em algum lugar, descubro um lugar novo que eu quero chegar. Como eu disse, não tenho tempo pra viver a mesma vida durante uma vida toda. Sem tempo, irmão!

É aquela coisa: o tempo perguntou pro tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo, que não tem tempo pra dizer pro tempo, que o tempo que o tempo tem, é o tempo que o tempo não tem.

Se nem o tempo tem tempo, como que EU vou ter tempo?

A única coisa que eu sei que eu tenho, é tempo para respirar.

A passagem de um ciclo para o outro se chama vazio. E o vazio nada mais é que a ausência de matéria. No vazio só tem ar (eu acho, se não for cientificamente correto, entra na metáfora). E como viver uma vida sem ar pra respirar?

Mas o vazio é louco porque ele claramente indica o fim/início de um novo ciclo. E, principalmente para quem não está consciente disso, dói.

Dói pra todo mundo essas mudanças de plano radicais, mas acho que ainda mais para quem tá dormindo no ponto. Vai tomar um susto quando acordar.

Estar consciente durante o vazio, só respirando, não-tem-preço. É um momento de pura gratidão. Gratidão pelo que passou, pelo que está passando, e pelo que ainda irá passar – Passar -. Já dizia Nx Zero: na vida tudo passa, não importa o que tu faça.

Mudanças de plano inesperadas nada mais são do que adaptações de rota. E elas vão se adaptando de acordo com o que o vento mandar. Talvez aquela sempre fosse a rota, mas se hoje o vento tá mais forte, vai ter que adaptar mais cedo que o planejado.

Se for o vento sul então, corre que em cinco dias o caminho já mudou pro outro lado. Ele continua na mesma direção, mas o trajeto já é outro. É o tal do vento suli, mô kiridu, esse fax côza.

E que bom. Que bom que ele faz coisa. Que bom que ele dá esse empurrãozinho. Vem limpando tudo que tem que ser limpo, e trazendo novos ares, novos olhares, novas aventuras!

De mochila nas costas, vou andando pela vida.

Eu que decido a direção do meu barco, e eu me adapto conforme o vento. Durante o trajeto, vou parando para apreciar a paisagem, explorar ilhas desertas, sentir novos sabores. Refletir, me sentir, me recarregar.

E partir pra próxima!

O burnout não fica em quarentena

Mulher sempre acha que é a Mulher-Maravilha, né? Eu sempre achei. Temos até o mesmo nome! Eu sempre me identifiquei muito com a Mulher-Maravilha porque assim, temos o mesmo nome, e ela é uma maravilha. Mas será que ela também opera em luta-fuga?

Lava, seca e passa. Cuida das plantas, faz o almoço, lava o box do banheiro, medita. Pinta, costura e pratica yoga três vezes ao dia virada pro sol em um ângulo de 38 graus perpendicular à lua. Por quê será que associamos essa maravilha de mulher com uma mulher maravilhosa?

Tem aquela clássica história pra boi dormir de que mulher consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. Homem não. Homem só consegue fazer uma. Ele não consegue, por exemplo, recolher o prato que comeu ao mesmo tempo que faz a digestão, porque é do homem só conseguir fazer uma coisa ao mesmo tempo. Ainda bem que a mulher consegue cozinhar, servir o prato, mastigar, engolir, e ainda lavar a louça ao mesmo tempo, porque se dependesse do homem, tão limitado, coitado, ficaria complicado…

Lá vem ela trazendo as boas novas. Tá grávida de cinco meses, semana que vem está partindo para uma expedição de escalada do Everest, começou a dieta paleo e, de acordo com a nutri, a prática de jejum intermitente tem sido maravilhosa para aumentar os níveis de antioxidantes no sangue e dar a energia necessária para um dia agitado!

A vida tem sido boa demais, diz ela. “Só no trabalho que está um pouco complicado. Meu departamento trocou de chefe, e esse é bem mais rigoroso. Me pediu uma planilha completa para calcular o número de gotas do oceano, que tá me dando um pouco de trabalho. Mas fora isso, tô bem!”

Das oito horas de expediente, duas eu produzo pra valer. As outras seis, eu passo tentando me concentrar para não pensar nas outras mil coisas que eu tenho pra fazer, diz ela. Que quero fazer, que deixei de fazer, que fiz, que pensei em fazer mas não fiz.

Será que a Mulher-Maravilha, minha xará, também opera em luta-fuga que nem eu? Que nem você?

Graças à Deus já to bem mais avançada nessa caminhada ao reparo, descanso e digestão. Já operei muito mais no modo sobrevivência, mas hoje a minha busca é pela vivência. Não faz sentido esse modo de ver a vida de que trabalho é tudo nesse mundo. Trabalho é sim tudo nesse mundo, é sim algo lindo e que deve ser amado, mas ele não é tudo nesse mundo! Trabalho é incrível e traz propósito de vida, mas ele só faz parte do meu mundo.

Dá um google em “karoshi” e depois volta pra gente conversar.

E aí, vai me dizer que karoshi tira férias? Que faz escolha de gênero? Idade? Profissão? Que fica em quarentena? Nem ele nem o burnout.

Hoje eu me peguei em um ciclo autodestrutivo de alta exigência de produção com níveis mais altos ainda de esgotamento. Longe do burnout mas com o pé apontado em direção. E se eu to me sentindo assim, nem imagino como outras pessoas possam se sentir.

Nós, mulheres que se dizem ser a Mulher-Maravilha, a diferentona stress-free, cuidado. Você não quer ser ela. Primeiro que eu nem sei porque a associam com uma faz-tudo super poderosa (alguém aí sabe?), e, segundo, porque presença é o mínimo de respeito que podemos nos dar.

Eu que me perdoe por estar tendo oportunidades absurdamente incríveis neste momento e não estar presente em nenhuma delas. Eu que me perdoe por não estar presente para me enxergar me tornando a mulher dos meus sonhos. Eu que me perdoe por não ter presenciado antes a minha clara exaustão. Mesmo tendo – literalmente – todo o tempo livre (alô, quarentena), nas últimas semanas eu estava ocupada demais para marcar presença naquela nova conquista.

Amanhã o despertador não toca.

Inspirações.

Donde vem? De onde são? Como surgem? Inspirações.

Inspiração vem de dentro, da alma. Do meio, do ambiente. Epigenética. Genética. Eu sou daonde eu vim ou eu venho de quem eu sou? De quem me fez? Me criou, me moldou. Me inspirou.

Inspirações. Elas vêm de dentro, do meu ser. Inspirações nada mais são do que expressões da minha alma transmutadas para algo físico. Uma pintura, uma costura, um crochê. Uma escrita… Um conselho. Uma comida. Cozinha é pura inspiração. Não existe comida boa se o cozinheiro não tá inspirado.

“Tá inspirada hoje, hein!” é a frase clássica quando algo muito bom está sendo muito bem feito. Entendeu né? Não tem como uma ação inspirada culminar em um resultado ruim.

Tá inspirada hoje, hein! Se inspirou em quem? Em mim, oras!

Mas nele também. E nela. Ela é uma das minhas maiores inspirações. Filha de uma grande mulher inspiradora, que gerou outra grande mulher inspiradora, que me gerou. Gerações de mulheres inspiradoras, essa eu conheço.

Mas hoje o dia é de uma dessas em especial. Dela, a primeira que me fez perceber e entender o que “inspiração” significa. Eu não vi acontecer, mas quando percebi, me dei conta de que muito das minhas inspirações foram inspiradas por ela. Nela, percebi que minhas próprias inspirações foram inspiradas nela.

Por ela também. Minha grande incentivadora, apoiadora que só vendo. Ela vibra com minhas conquistas, me motiva, me guia, me serve de espelho e orientação. O símbolo da mulher guerreira, batalhadora. E no bom sentido, porque com ela não existem dificuldades. Tudo é motivo de festa e de celebração.

Meus aniversários de criança, catequese, crisma, formatura. Cada pequena conquista minha, ou de qualquer outra pessoa, ela vibra como se fosse dela. Isso não é simplesmente tão inspirador?!

Ela é de fato uma mulher inspiradora. Todos na família, na comunidade, nas amizades, todo mundo se inspira! Não tem um que passe ileso. Por onde ela passa, todo mundo se fascina com tamanha força. Não preciso nem dizer que é casada com um homem incrivelmente inspirador, e que o casamento deles me inspira muito, né? Ah tá.

Ela me lembra bolo de cenoura. Se eu tivesse que descrever ela em uma palavra, seria bolo de cenoura. Meu bolo preferido, colorido, fofinho. Amado por todo e qualquer brasileiro, que sempre vem com uma calda de chocolate que dá o toque final. É aquele bolo que não tem como não amar.

Sim, inspiração vem de dentro. Sim, inspiração é a expressão da alma, de algo interno, que é nosso, e só nosso. É humanamente impossível que Maria tenha a mesma inspiração que Benta, pois são duas pessoas diferentes. Porém, a minha inspiração interna primeiramente se inspirou em algo externo, em alguém lá fora. É claro que um ser não se inspira em uma coisa só, mas existem coisas que são grandes inspirações pra alma, maiores que outros pequenos insights. E ela é uma dessas.

Imagino que todos também tenham algo(s) ou alguém(s) em quem se inspiraram antes de realmente se inspirarem. Agradeça. Esse texto foi pensado em uma pessoa inspiradora específica, mas ele também se refere a todas as outras almas inspiradoras que pairam por aí. Na minha vida tem várias outras, e eu sei que ela não se importa em dividir esse parágrafo. Obrigada a todos.

E obrigada a você, minha querida, por ser quem tu és. Por ser maravilhosa e inspiradora. Por ter formado essa família incrível, por fazer parte da minha vida, por me permitir ter tantas memórias boas. Obrigada por me inspirar a me inspirar. Que tu continues inspirando muitas outras almas a se inspirarem também, pelo resto de nossas vidas.

Com amor,

Torre de Babel

Come in, welcome! Vorrei un caffè, per favore. Café avec ou sain sucre? Pode ser sem açúcar, por favor. Oggi fa caldo, vero? Pois é, ouvi dizer que o sol entrou em combustão e partículas de estrela se espalharam por aí. Que loco todo esto.

Dois camundongos caminhavam pela rua. Um olhou pro outro e disse: “Eaí, já conversou com as estrelas hoje?” O segundo camundongo, espantado, respondeu: “Cumé? Conversou com as estrelas?”

“É. Olha pra elas e pergunta como elas fazem pra brilhar tanto. Todo dia eu faço isso, e todo dia elas me dão uma ideia diferente, apesar de nunca darem a resposta completa”. O outro animal, curioso que só vendo, decidiu então experimentar. Mirou a estrela mais brilhante daquela noite, fechou os olhos, e pensou na seguinte pergunta: “Como eu faço pra brilhar?”

Shine like a star, respondeu ela. “Tem que ser estrela pra brilhar”, entendeu ele.

Não importa quantas vezes o camundongo perguntasse, e a estrela respondesse, ele nunca estava satisfeito com a resposta. Achava que ela nunca o respondia, pois não o compreendia. Talvez falasse um idioma diferente, pensou ele. Porque a resposta nunca vinha no estilo “Para brilhar você deve fazer X, Y e Z”.

Qual resposta ele queria? Qual pergunta ela entendia? O que a estrela queria dizer, qual a mensagem que o camundongo queria passar? O que ela queria entender? O que ele queria expressar?

Assim é a vida. Comunicação. Expressão. Diferentes pessoas se comunicam diariamente. De diferentes maneiras. Diferentes ideias, sentimentos, momentos de vida, pensamentos. Diferentes pensamentos. Diferentes visões de mundo. Crenças variadas.

Como fazer com que D se comunique com W? E que W, que nasceu na Paraíba, entenda o que D, que nasceu nos Pampas Gaúchos, quer dizer? Como fazer com que A, que virou skatista, faça com que B, seu irmão violinista, entenda quando ele conta da manobre Ollie 180 que conseguiu semana passada?

A estrela respondeu o camundongo. Ela disse “brilhe como uma estrela”. Ela disse -como- ele tem que fazer pra brilhar. Mas não disse com as palavras que ele queria ouvir. Então o camundongo não entendeu. Não quis entender. Entendeu que só brilha quem é estrela. Deve ser o idioma, pensou ele. Deve ser a hora do dia, a religião, a cor de pele. Mas eles estavam falando a mesma coisa!

O camundongo vê o mundo de baixo, da terra. A estrela vê o mundo de cima. Lá do alto. A perspectiva dela é diferente. Não é melhor nem pior, só diferente. Mas ambos enxergam a vida de formas opostas. Mesmo assim, eles estavam falando do mesmo assunto.

Todo cuidado é pouco na hora de se comunicar. É uma crença pessoal, mas eu acredito que em todas as conversas, cada parte sai com um entendimento diferente. Cada um viu aquela situação de uma forma, absorveu o que quis absorver, e levou consigo a mensagem que mais o convinha naquele momento. É complicado. É fácil.

É simples, mas bem complexo.

Nos meus textos, 99% do que eu quero dizer não é compreendido. A pessoa mais próxima possível de mim não entendeu a mensagem que eu quis passar em um texto que eu tinha 99% de certeza que ela, pelo menos ela, ia entender. E assim é a vida. Não importa quem seja, vai ter falha na comunicação.

Essa é a graça da vida. Infinitas possibilidades existem no momento que eu me expresso. Infinitos entendimentos, lições, ensinamentos, pensamentos. Infinitos resultados e sentimentos. Não tem fim, são infinitas possibilidades. Toda vez que o camundongo falar com a estrela ela vai responder algo diferente. Ela vai dar a mesma resposta, mas ele vai entender o que ele quiser, dependendo do corte de cabelo que estiver usando, do mood do dia, da fase musical, do momentum da vez.

A tal da Torre de Babel. Como fazer com que eu te entenda? E que você me compreenda? Difícil essa, hein…

Lições de Croquete & Sanduíche

Sabe essas agências de trabalho em que a gente se inscreve pra trabalhar em eventos aleatórios? Ou eles ficam com os seus dados e te chamam para “trabalhar recolhendo ingresso no show da Adele nesse sábado” ou, pelo aplicativo, você escolhe o dia que está disponível e se aplica pro evento que pagar mais (eu vou pelo que dura menos tempo).

Pá pum. Vai lá, fica pensando “que que eu tô fazendo aqui”, fica se perguntando porque aquele colega de trabalho tá animadão pra servir croquete durante 6 horas nessa feira de agrônomos holandeses, pega dois ônibus e um trem de volta pra casa, e recebe o pagamento duas sexta-feiras depois no valor de 60 euros.

Na época, no dia da Adele meu chefe sacana me recrutou pra trabalhar e não pude ir (alguém não sabe o que é dois empregos?). Mas aí pra compensar fui recolher ingresso em um evento super descolado que até hoje não descobri direito o que era, e outro dia fui paga pra passar maionese no sanduíche de uns universitários enquanto minha colega era paga pra botar o picles e a cebola no pão.

E foi a botada de picles e cebola no pão mais marcante que eu já presenciei. Aquilo mudou minha vida. As três horas de contato que eu tive com essa colega foram inspiradoras. Ela me contou que esse era o único trabalho dela, e como ela amava trabalhar ali. Ela só via perfeição em trabalhar das 9h às 16h em pé servindo os alunos e montando o sanduíche que eles pediam. Ela trabalhava ali há anos – porque queria. Ela sorria o tempo -inteiro-, conversava com todo mundo, e até elogiava o cabelo das alunas.

Outro dia, eu tava pistola servindo croquete para aqueles agrônomos holandeses. Eu sou muito #teamorgânicos e estava ali alimentando aqueles compradores de pesticida, botando comida na mesinha daqueles homens prestes a comprar um novo trator para jogar agrotóxico na lavoura.

“Dank je wel!”. Que mané “obrigada”, irmãoooo

Mas enquanto eu trabalhava na feira de cara amarrada, sem valorizar na verdade o quanto a Holanda tem um trabalho lindo com seus alimentos, minha “chefe” do dia trabalhava felizona. Ela pegava aquela bandeja hiper pesada cheia de croquete como se fosse uma pluma, e andava pela feira se divertindo e rindo com os convidados.

Ela me contou que a vida dela era essa. Ela trabalhava em qualquer tipo de evento, para qualquer agência, sempre na forma de trabalho informal. A carreira dela era se aplicar para eventos aleatórios, marcar presença no dia, e esperar a grana cair na conta no final da semana. Ela tinha 40 anos, e fazia isso há no mínimo 20.

Não é lindo?

Talvez você não tenha captado, mas o post “Cara, cadê meu carro?” fala, na verdade, sobre diferentes formas de se viver. Existem inúmeras formas de se viver.

Eu não sei se é por causa da cultura que eu venho ou o quê, mas eu admito que pra mim é estranho imaginar não ter uma carreira. Ou ter uma carreira diferente da que eu imagino – profissões formais e overrated, mais do mesmo. Mas é tão inspirador viver experiências “aleatórias”, sair da caixa, conhecer novos olhares, novas vidas, novos objetivos.

Mais inspirador ainda é ver as pessoas (realmente) felizes fazendo tarefas que não é todo dia que eu paro para valorizar. E não é como se elas estivessem ali porque precisam. Elas estão ali porque esse é o instrumento delas, porque elas querem. Não é todo mundo que quer ser o Bill Gates com 20 anos de idade ou se hospedar no Conrad toda férias de verão.

Poderia escrever um livro de tanta coisa aleatória que já vivi. Ainda bem. Que eu viva mais infinitas experiências aleatórias, e que me tragam muita sabedoria. Muitas novas vidas, formas de vida. O meu mais sincero obrigada a essas colegas por me serem e me ensinarem tanto.

O social distancing é bom.

“Sim sim, já estou indo. Só vou acabar aqui essa cerveja e já vou embora.”

“Mas já?”

“Sabe o que que é, tem gente me esperando. Tenho outras vidas pra passear e outros ensinamentos pra compartilhar.”

“Ah, então tá. Obrigada pela visita. Foi muito bom estar com você durante esse tempo. Aprendi bastante, mas agora a gente já é diferente. Fique à vontade pra voltar se quiser, senão te acompanho de longe. “

O social distancing é bom, ele existe desde sempre, e nunca vai deixar de existir. E ele não tem -nada- a ver com isolamento social ou internet.

Sabe quando, a gente fala com alguém, e a gente sente? A gente só sente, a pessoa indo embora, a amizade se afastando, as coisas mudando. A gente sente que já não é mais o que foi. Eu sei, sempre muda, mas já não é mais o que era antes.

Esse momento é louco. Diversas pessoas passam pela vida da gente. Diversas pessoas, passam, pela vida da gente. Mas elas passam mesmo, de deixar de estar presente. Elas continuam ali, vivendo a vida delas, mas não fazem mais parte da nossa.

Esse momento é louco. Pra mim dói. Sempre doeu. Lembro de absolutamente todas as pessoas que passaram pela minha vida, e tenho um carinho bizarro por todas elas. Ele acha que eu não lembro dele, ela pensa que eu esqueci quem ela foi. Esqueci, não.

João falou pra Maria que falou pra Pedro que Pedro é o melhor amigo de João. João e Pedro são muito amigos, quase irmãos. Viajam juntos, conhecem a família – e os problemas – um do outro, parece que são amigos desde sempre. Que bom é ter João, disse Pedro.

Pedro entrou na faculdade. Mudou de colégio, começou natação, conheceu Magali. Pedro continuou ali. Mas João cortou o cabelo, se apaixonou por Maria, começou aula de canto e se mudou pra outro bairro. João continua ali. Se esforçando. Os dois. Vamos marcar algo na sexta. Sexta não dá, tem que ser quinta. Quinta vou cortar a unha, tem que ser segunda.

Semana que vem, então. Em novembro. Eu vi ele ontem!

É inevitável. Pedro ama João e aprendeu muito com ele. Tudo que eles viveram foi bom e tá guardado no coração. Mas Lucas tá chegando e João tem que dar licença. Pedro tem que aprender coisas novas, João tem que ensinar outros a jogar futebol. João tem que aprender mais sobre a vida, Pedro tem que ensinar Carlos sobre economia.

É inevitável. É o fluxo natural da vida. Um dá lugar pro outro, um preenche o lugar do outro. Hoje, eu sou quem eu sou, porque tantas pessoas passaram pela minha vida. Gratidão eterna por cada um. Mas espero que tantas outras também passem. Decidi que, em vez de lutar contra, vou aceitar. Receber, agradecer, e deixar ir.

A vida inteira, muitas despedidas foram um luto pra mim. Doeu. Internamente, mas doeu. Mas o social distancing é bom, porque ele é um feedback externo de uma mudança interna. Eu to mudando, ele tá mudando. Ninguém pra melhor ou pra pior, são só mudanças.

Agora eu vou pra lá, ela pra cá, e a vida é uma dança. Quem sabe a gente dance junto de novo! Quem sabe tem outros que dancem melhor que eu! Que gostem de samba, ou que prefiram axé. Hoje eu tô na roda de pagode, amanhã é dia de baile funk. Quem vai dançar comigo hoje?

O meu, não.

O meu, não. Aquele ali, sim. Esse aqui, não. Esse aqui é diferente.

O meu? Não.

Esse aqui é dos bom, aqueles que só se acha uma vez na vida. Ele é boa gente, gosta de cantar, fingir que se perdeu e depois mostrar o caminho de volta pra casa. Ele é confiança, segurança e nem sempre tá disponível pra falar do passado.

Ah, o passado. Ele não me engana. Um dia, ele me disse que o futuro pode ser feito da memória. A gente nasce e vive coisas. As coisas crescem e a gente carrega elas junto. O que a gente vê, é baseado nas coisas que a gente carrega e no que elas fizeram crescer dentro de nós. O que eu enxergava, só era baseado no que eu achava que acreditava.

Se eu soubesse que o que eu enxergava só refletia o que eu acreditava, teria acreditado diferente. Teria pego as coisas que eu carregava, botado em um saquinho, e levado de volta pra casa. Chegando em casa, eu teria falado: “olha, daqui pra frente é diferente”. Saiba que, daqui pra frente, tudo que acontecer só é um reflexo do que eu quiser que aconteça.

Daqui pra frente vai ser diferente. Eu vou pegar o saquinho da memória e fazer ele enxergar o que eu quiser que ele acredite. Tá acompanhando? Eu vou tentar simplificar.

Ontem eu conheci uma pessoa. Ele é boa pinta, homem de família, boa gente. O pai é juiz e a mãe, engenheira. Ele perguntou como eu achava que o que eu vivi antigamente influenciou no meu presente. Eu disse, olha… Não é bem assim… O que passou, passou. O presente é o agora e nada mais importa.

Ele é insistente, e surpreendente. Quando eu conheci, logo queria sair. Mas ele ficou, me puxou pra um canto e falou: fica mais um pouco?

E eu sou independente. Não preciso de ninguém. Finalmente não preciso mais dele. Mas o moço é tão surpreendente que me fez querer ficar mais meia hora. 40 minutos, 1 semana.

Acho que ele é diferente. Esses dias peguei ele sendo normal. Sendo só mais um. Mas aí puxei meu saquinho da memória e falei “olha, daqui pra frente, tudo que acontecer só é um reflexo do que eu quiser que aconteça”. O que eu enxergar aqui vai depender do que eu quiser acreditar.

O meu? Não. O meu não é igual. E o meu futuro não vai ser feito da memória. O que passou, passou.

Depois do bar, ele prometeu me levar pra casa se eu ficasse mais um pouco. Falou que ainda era cedo pra ir embora. Aceita mais uma?

Acho que ele é diferente. O que eu quero que ele seja?