Sou (toda) ouvidos

“Sério, por que essa pessoa inventa de botar esse brinco aqui? Ah, eu não vou deixar que mexam no meu território. Eu sou a abelha rainha e essa cera é o meu mel.

Que nada irmã, essa aí nem nos notou. Passou a vida inteira nos olhando mas nunca nos enxergou. Nos fantasiou, endereçou, limpou, mas prestar atenção que é bom, nada!

Ah, pois é. Semana passada eu me revoltei e inflamei. Quero nem saber, por bem ou por mal eu reivindico meu direito de ser ouvida. Quando é pra saber dos outros a gente presta né, agora quando é pra saber de si não tem santo que lhe faça ouvir!

Ah, pois é. Quando é pra apoiar o Ray Ban a gente presta né, agora quando é aparecer no penteado a gente tem que se esconder. Quando é pra ouvir elogio a gente é toda ouvidos, mas quando a crítica aparece a gente finge que nem escuta. O que será que ele tava falando mesmo? Que não gostou? Peraí, não tô ouvindo”.

Hoje, enquanto minhas orelhas conversavam, eu percebi que elas estavam ali. Percebi que eu tenho uma orelha esquerda e uma orelha direita. Quando eu me olhei no espelho, lá estavam elas: duas orelhas. A direita estava quente como o verão, vermelha. Quase pegando fogo. A esquerda estava gelada, brisada, cansada. Cansada de não ser notada. Cansada de ser toda ouvidos. Cansada de ser manipulada.

Hoje eu finalmente percebi que eu realmente tenho duas orelhas. Uma esquerda, e uma direita. A direita estava gelada como água em temperatura baixa. A esquerda estava quente como água fervente. Aliás, faltou água quente. Eu moro sozinha e para resolver o problema da água tenho que ligar pro gerente.

Só mês que vem, disse ele. Enquanto isso, fica aí resolvendo o seu problema. Bebe uma Corona e fica em quarentena. Quem sabe assim você aprende, que, a gente quando é presidente, sabe de nada, inocente. Sabe de nada da gente.

Hoje eu percebi que eu escolho o que eu quero ouvir. O que eu quero ver. Como eu quero entender. Hoje eu percebi que meu corpo dá sinais. Sinal verde, vermelho e amarelo. Fica aí a reflexão.

É tanta coisa que passa despercebida na correria do dia a dia, né? Ou seria, ignorada? Adiada? Eu não tinha reparado nas minhas orelhas, mesmo elas estando ali desde que eu nasci. O que será que eu vou descobrir amanhã? Que esse tempo me permita evoluir.

Cara, cadê meu carro?

Chegando em Kalibo, fechamos o olho e apontamos pra uma das 15 vans brancas paradas na frente do aeroporto. Todas iguais. Vai essa mesmo. Sem Zika, seu vírus, teu alerta ficou pra trás lá no saguão. Agora eu tô nas Filipinas.

Duas horas de van até chegar no porto. Durante o caminho, o motorista “pedia” para os 6 passageiros se espremerem enquanto as crianças iam entrando. As aulas do dia tinham acabado e a van escolar também fazia bicos de van pra turista.

Ao som de Bob Marley, um barco me levava pra lugar algum. Acordei de manhã com passagem pra Burma, mas há duas horas estava nas terras de Duterte.

Terra à vista! Aquela palmeira não me engana. Ainda tem uma hora de Tuk-Tuk até chegar no Mad Monkey. Eita, aonde eu tô? Quem é esse senhor que tá me carregando pelo pôr-do-sol mais bem colorido que esse universo já me deu?

Lá é terra, casa simples, barulho. Muito barulho. Quanto barulho se escuta todo dia. Finalmente um silêncio.

“Então, de Itaparica vocês pegam um barco até lá. De lá, são quatro horas de ônibus até a metade do caminho. Depois, pegam outro ônibus e depois um barco. Aí chegou no Morro.

De Moreré, vocês caminham pela praia até encontrar a estação dos tratores. Pega um trator ou um quadriciclo até Boipeba. Daí caminham umas horas e pegam um barco para Barra Grande. De lá, procura alguém que te leva até o Cassange”. Ô mainha, essa Bahia é de rei.

Mas cara, cadê meu carro? Ele, que é minha casa, meu porto seguro, não vai nem carregar minha mochila? Que nada. Me abandonou pra tomar gasolina no bar. Então eu vou de bicicleta. Esse é meu único meio de transporte agora mesmo.

Sem tempo, irmão. Sem. Tempo. Irmão. Eu não tenho tempo pra viver a mesma vida durante uma vida toda. Olha a quantidade de opções que existe por aí. Barco, trator, moto, trem, bicicleta, tuk-tuk (!) Quem sou eu para caminhar só com minhas pernas?

Já recrutei minhas mãos e avisei que da próxima é a vez delas. Eu sou internacionalista e é isso que internacionalistas fazem. Eles não sabem diferenciar mãos de pernas, ônibus de avião. Mas e eu que sou dentista?

Você é humano? Então pronto. Não sabe diferenciar também. Só não aprendeu ainda. A partir de agora, tá liberado se virar com o que tem e viver mais do que não convém.

Eu não sou nada. Eu estou sendo algo. Eu sou tudo. Quando me chamaram pra andar de Jeep nas montanhas deu um buggy no sistema e de início eu recusei. Me assustei. Mas depois entendi. Então é isso que o surfista sente quando anda de skate?

Sabe-se lá qual será meu meio de transporte da próxima vez que a gente conversar. Provavelmente um patinete, porque ainda tenho medo de subir naquele que é elétrico. Mas a verdade é que não importa. Eu ainda vou andar por todos. O fato é que eu achava que precisava de um carro.

Hoje eu nem lembro aonde estacionei. Acho que vendi. Me pagaram em sonhos. Ninguém resiste àquela oferta do dia tentadora né? Compre um sonho e leve dois. “Só hoje, se você levar um abridor de mão da marca Zona de Conforto, você concorre há quatro novas chances de viver algo incrível e quinhentos mil novas possibilidades em retorno”.

Feminidade

Feminidade. Quase um feminismo. Mais que isso. Feminidade.

Se tem uma coisa que eu admiro é mulher. Todo tipo de mulher. Mulheridade. Mulher não tem idade.

Mulheridade é… o quê? É uma canção cantada desde os velhos tempos. Ancestralidade. Tem coisa mais bela que a anciã? Mulher sábia, mulher selvagem. Mulher-esqueleto. Eu carrego a minha comigo sempre.

Já dizia a velha sábia. Aquela que nada teme, tudo vê. Uma vez ela me disse que minha intuição não erra nunca. Mal sabia eu que intuição não é instinto. Mal sabia eu que eu carregava a lua dentro de mim. Até hoje.

Mulher não se ajuda. Se julga. A mulher de hoje em dia só quer saber de reclamar do patriarcado. Cadê a atenção pro matriarcado? Igualdade? Possibilidade? Humanidade.

Ah, se a velha sábia soubesse. E se eu contar pra ela, que a mulher hoje vai pra rua reclamar da opressão? Ótimo. Que ela joga pra fora toda a energia que tem dentro? Peraí. Que ela descarrega sua potência implorando pro mundo lhe dar atenção, quando ela mesma não se dá? Eita.

O feminismo é todo dia. Ele é vivo, ele é dinâmico. E se eu contar pra velha sábia que eu não marchei no dia das mulheres? Hmm… Tira esse -ismo. O ismo não é condição. Bota um -ade. A de quê? A de artigo feminino.

Ô dona moça, eu tô entendendo é nada que cê tá dizendo.

Fala com a velha sábia. Pergunta pra ela que ela vai te responder. Um dia eu vou ocupar o lugar dela. Tá mais que na hora de ouvirmos suas histórias, o que ela tem pra nos contar.

Ô mulher, faz isso contigo não. Ela é tão linda. Um dia ela já foi baleia, hoje ela é sereia. Ela é mãe. Avó, tataravó. Bisavó. Eu carrego elas comigo, e você também. Eu sou mulher e minha potência orgástica é infinita. É um acúmulo de potências que me guia ao encontro da minha.

Um texto sem pé nem cabeça, porque ele é o corpo todo. Você, que é mulher, liberte-se. Dê uma passadinha lá na vila, a velha ta te esperando. Ela tem tanto à dizer… Bruxa-má. Bruxa-boa. Pega a vassoura e sai voando. Espalha por aí esse encanto.

O homem, ele é lindo. Mas ele só reproduz o que aprendeu. Basta ensiná-los diferente. Levar o ódio pra passear no dia das mulheres não é lá grande ensinamento.

Muda a frequência desse rádio aí, sintoniza na rede Feminidade. Lá, você encontra depoimentos de todos os tipos de mulheridade. Tem tons de pele, sexualidade, orientação sexual, altura, gordura, estria e celulite. Tem todo tipo de manifestação externa de dor interna. Tem todo tipo de cura. É um paraíso.

Vou contar pra velha sábia que o -ismo foi embora e deixou o -ade em seu lugar. Vou contar pra velha sábia que a mulher selvagem tá cantando e ela trouxe a mulher-esqueleto junto. Elas tão chegando. Tô sentindo o cheirinho de café quentinho.

Trava-língua

E de repente eu travei. Tava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Eu estava animada, encantada, apaixonada. E não é por ele não, moço, é por mim sim. Mas aí eu parei e não consegui mais continuar.

Estava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Cansei, sentei no muro e lá me deixei. Tem vezes que a gente começa algo e depois não consegue mais continuar, né? Por quê?

A ideia de voar com os pássaros me parece tão bem. Mês passado eu decidi tentar. Por que não? Peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão e pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar. Ele me disse: “Olha, vai ser difícil. Antes de tudo, você vai ter que realmente querer voar.” Eu falei que isso não era problema, porque eu queria mesmo. Quem não quer esbarrar com um avião enquanto vai no supermercado fazer a comprinha da semana?

Ele disse: “Então tá bem. O primeiro passo pra voar é acreditar na possibilidade do voo. Sente-se aqui e fique duas horas conversando com seus pensamentos, e escute o que eles têm a dizer”.

Mas que absurdo! Eu peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão, pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar e ele me manda ficar sentada encarando meus pensamentos? Eu quero logo é sair voando por aí!

De cara emburrada, sentei. Logo já me dei de cara com o Sr. Medo, que naquele dia estava trabalhando de porteiro pro hotel em que eu tinha feito uma reserva. “Você vai passar a noite aqui?”, disse ele. Eu acenei com a cabeça, e, sem sucesso, tentei fugir da conversa. Mas ele é insistente, e ficou umas duas horas ali trocando uma ideia comigo.

Sabe, eu fui pegando gosto pela coisa. Aquele senhor de testa franzida e barba grisalha a princípio não me agradava – nenhum pouco – mas sua insistência me obrigou a ficar ali parada ouvindo o que ele tinha pra me dizer. E até que acabei gostando da conversa. Sabe o que ele me disse? Que seu nome era Medo porque sua mãe, Coragem, havia o abandonado quando era criança, e seu pai, Persistência, estava tão abatido com a falta de Coragem que resolveu descontar no pobre garoto. E depois fugiu. Uma tragédia!

Mas estava tudo indo tão bem, que decidi aprender a voar. Seu Gavião me disse então que o segundo passo agora era treinar o voo, e persistir. “Ser mestre no básico”, disse ele.

Mas que absurdo! Eu peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão, pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar, ele me mandou ficar encarando meus pensamentos, conversei com o Sr. Medo, e agora ele me manda treinar e me tornar mestre no básico? E persistir? E se me faltar coragem? Quem vai cuidar do medo?

Estava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Estava animada, encantada, apaixonada pela ideia de voar com os pássaros. Mas comecei. E aí percebi que ia levar um tempo até eu esbarrar com um avião no meio do caminho pro supermercado no dia de fazer a comprinha da semana. E aí me apoiei nesse muro pra amarrar meu cadarço e por aqui fiquei.

Ei! Quer saber? Eu acho que a culpa é do Seu Gavião! Ele que não sabe ensinar! Gavião nem voa direito! Se eu resolvi voar, tenho que ter aula de voo, oras bolas. Que mané história de ser mestre no básico. O básico serve pra que?

Eu vou tentar de novo. Vou pegar minha escadinha de madeira, correr pra direção oposta do sertão e pedir pro Seu Avestruz me ensinar a voar. Esse sim vai me dar aulas de voo! O Sr. Medo que converse sozinho. Será que algum dia Persistência vai voltar e perdoar a falta de Coragem?

Respeita a minha fase

Eu tô em uma fase que critica muito. Critica tudo. Mas não no sentido de criticar (apontar o dedo/julgar), mas no sentido de criticar (questionar). Tô questionando tudo. E eu nunca fui assim. Acabei de me tocar que estou nessa fase. E vim aqui escrever.

Eu ando criticando tudo. Prestando muita atenção no que sai da boca das pessoas – na verdade isso eu sempre fiz. Fiz muito e tenho feito mais ainda. Quero só ver o quanto eu farei no futuro.

O ponto é que eu ando prestando muita atenção nas pessoas. Nas palavras principalmente. Mas principalmente no olhar e nos gestos. Principalmente no contexto da vida delas, na verdade. Me desculpa, mas eu tô te observando.

Eu sempre fui bela, recatada e do lar. Sempre fui um mulherão da pourra e sempre me senti bem pra frentex. Mas eu sempre fui beautiful, modest and from home. Fazia mil e um questionamentos na minha cabeça, mas externava zero. Medo de estar errada. Medo de ser julgada. Medo de ser questionada.

Medo de estar certa. Medo de ter uma opinião forte. Medo de mostrar a minha visão dos fatos às pessoas e fazer elas verem o quanto estavam “erradas” (o certo não existe, não é mesmo?).

Medo de brilhar. Fiz terapia por um bom tempo e esse era um tema hiper corriqueiro. Eu sempre soube que minha luz era muito forte e tinha medo de brilhar demais. De ofuscar a luz dos outros. Muito fofo de mim pensar isso, mas hoje eu fortemente imagino que todos os outros seres humanos tenham o mesmo medo.

Cada um tem sua luz. Seu brilho. E, pro meu mundo, a minha luz brilha mais que a dos outros. Pro seu mundo, a sua luz brilha mais que a dos outros. E é assim que tem que ser. Se cada um for o centro do seu universo, o mundo vira um lugar melhor.

Por favor, não me entenda mal. Não é pra ser egoísta e sair achando que “só eu que importa”. Tenha bom senso. O que eu quero dizer é o amor próprio. Se eu me amar tanto, a um nível que chega a transbordar, eu tenho amor de sobra pra oferecer pro outro. E eu não preciso de nada em troca, porque já tá tudo preenchido em mim. Eu só ofereço amor, com amor.

Eu tô tão feliz em estar começando essa fase de ativista. Ativista das minhas opiniões. Também estou feliz em ter a consciência de que externalizar opiniões é perigoso, e tenho que fazer isso com cuidado. Eu tenho sim que criticar (questionar) e posicionar minha opinião, mas tenho que fazer isso sem machucar ninguém. E você também, mô kiridu.

Não existe essa história de ofuscar a luz dos outros. Todas as luzes tem a capacidade de brilhar igualmente. E simultaneamente. Vai depender de cada um decidir qual a intensidade do seu brilho naquele momento.

Eu sempre fui questionadora. Mas nunca questionei. Procurava as respostas dentro da minha cabeça. O que me levou a encontrá-las todas, de uma maneira ou de outra (Fica a dica). Mas agora eu tô afim é de procurar lá fora. E eu não tenho a intenção de encontrar nenhuma resposta. Perguntar lá fora é só um reflexo da vontade de falar.

Agora dá licença que eu vou te observar reagindo a esse texto. Dá licença que eu vou me observar tendo vontade de falar. De gritar pro mundo. Me escuta. Eu tenho algo importante a dizer. Por quê?

Não (re)inventa moda

Eu resolvi que eu quero conseguir pintar uma tela a óleo com o dedinho esquerdo do meu pé direito. É isso mesmo. Minha meta agora é fazer com que o dedinho esquerdo do meu pé direito segure alguns pincéis e faça uma pintura. E esse pintura tem que ser igual ao “Sol Nascente”, do Monet. Aceito nada menos que isso.

Tá, pra isso eu tenho então que ensinar o meu dedinho esquerdo a segurar um pincel. E tenho que ensinar o meu pé direito que agora vai ter um dedinho ali que vai virar pintor, então ele que se resolva em como vai deixar de sustentar o meu corpo pra virar suporte de artista.

Péra, o que? Isso não faz sentido. Dedinhos de pé não são como dedos da mão. E pé não é mão. E um dedo sozinho não segura pincel…

Quero nem saber. Eu vou ser o que eu quero ser. Já dizia Charlie Brown que o impossível é só questão de opinião. Quem sou eu pra contrariá-lo???

Eu vou é me reinventar. Vou sair daqui agora, pegar minha tobata, e partir pras Bahamas em busca da neve. Ah, a neve… tão linda e branquinha. Parecida com a areia da praia. Neve e praia são quase a mesma coisa né?

Cê ta inventando história, dona moça. Ficou é maluca. Parece aquelas minas que viram CEO de empresa: deu a louca na dona mariquinha.

Invento. Me reinvento. Não sou a mesma todo dia. Sou melhor a cada dia. O que eu gostava ontem talvez já não goste mais hoje. O que eu gostava ontem talvez hoje eu goste ainda mais. Descobri que gosto de tanta coisa… Tanta. Coisa. Será que consigo fazer tudo? Será que posso ser tudo? O que mais eu quero ser? Fazer?

Cozinhar, pintar, passar roupa. Passar roupa? – Eu sou única, mon amour.

Que Deus me abençoe e me faça gostar de cada vez mais coisas. E que eu aprenda a desgostar também. A desapegar. Se a fase já passou, então já Elvis. Se a fase tá começando, ENTÃO (NÃO) ME SEGURA

A minha casa é o meu laboratório.

Cada vez mais eu percebo, abismada, o quanto as pessoas não conseguem ficar em casa. Poderia passar horas divagando aqui sobre a minha jornada com a minha casa e como eu a amo, mas esse não é o ponto agora. O ponto agora é que as pessoas não conseguem mais ficar em casa.

Elas têm medo. Elas morrem de medo de ter que passar algumas horas em casa. É sério, parece brincadeira, mas minha pesquisa empírica – vulgo, prestar atenção no que as pessoas estão falando – demonstra de forma clara o quanto as pessoas têm medo de ficar em casa. Elas nem estão prestando atenção no que querem dizer quando falam o que falam, mas eu estou.

“Eu prefiro ir pra qualquer lugar do que ficar uma noite a mais em casa”. “Tá, você ficou em casa todo esse tempo?”. “Mas, o que você faz pra se divertir?”. Simples frases que revelam muito. Talvez aqui jogadas não pareça, mas da próxima vez que você ouví-las, preste atenção. No contexto. O contexto revela muito.

E não me leve à mal, eu não julgo. E não julgo mesmo, eu já fui assim. Já fui muito assim. Dói ter que ficar em casa quando ainda não temos um carinho por ela, quando ainda não estabelecemos uma conexão profunda com nós mesmos.

Por favor, não leve esse texto pro lado racional da coisa. Eu sei que lendo não parece fazer sentido. Então só sinta. Deixa a energia das minhas palavras te tocar, e não tente entender de forma lógica. Eu não estou nem falando muito da casa como lugar físico. Tô indo além. Então só sinta.

Precisamos aprender a ficar em casa. A se divertir em casa. A se descobrir em casa. O bem mais valioso que existe nesse universo é o tempo passado em casa. Vivido em casa. Não adianta passar tempo em casa mexendo no celular, ou só vendo televisão. Viva a sua casa. Se descubra em casa. É bem ali mesmo que você vai descobrir quem você é. Quem você quer ser. E é ali mesmo que você vai começar a se tornar essa pessoa que você quer ser.

Por favor, viva um tempo em casa. Pegue um alimento na mão e sinta seu cheiro. Sua textura. Qual a cor? Qual o sabor? O que te deu vontade de cozinhar com ele? Hoje acaba em pizza.

Peraí que eu vou limpar o banheiro. Eita, o que é isso aqui? Que objeto é esse que eu nem lembrava que eu tinha? Nossa, como é lindo!

Quer saber, eu vou arrumar meu guarda-roupa. Tem muita cois… meu Deus olha essa blusa! Eu nem lembrava que eu tinha ela! Caramba, eu usei ela naquela viagem incrível pros andes suíços na tailândia. Nossa, que viagem incrível que foi. Que saudade. Qual será minha próxima viagem? Bem que eu podia ir passar um tempo esquiando no Havaí né? Ninguém nunca ouviu falar do Butão, é pra lá que eu vou!

O tal do corona…

Agora, no meio da crise do coronavírus. Eu quero que todos estejam protegidos, principalmente aqueles que são da zona de risco, e que tenham suas necessidades básicas atendidas. Porém, eu não aguento mais ouvir falar sobre isso. Esse tem sido o único assunto que as pessoas têm falado nos últimos dias, e, sinceramente, já cansei.

Cansei porque elas só falam de medo, criticam. Conversations have been summed up to this one topic, and all people do is stay on their phones angry-texting in whatsapp groups, and spreading their fears around. Students, they think they know more than the government and than those who are specialized in dealing with crisis like these. Todo mundo fechou as fronteiras, vamos fechar também. They all have closed the Universities, we must close too! Stupid government, taking some time to think about what to do instead of simply shutting down the Uni. O efeito manada.

O tal do efeito manada. Bendito não seja esse efeito. Me dói ver o quanto as pessoas não pensam sobre nada, e só agem de forma reativa. Elas só reagem. Instintivamente, não intuitivamente. Nada nunca tá bom o suficiente. E o egoísmo? “Vamos comprar todos os pacotes de papel-higiênico do supermercado e nos salvar do apocalipse”.

Elas não veem o quão bom está sendo o universo. Não me entenda mal, eu sinto por todos que de alguma forma sofreram com isso, e lamento por todas as coisas de ruim. Mas, aos que restaram, olhe ao redor. O universo está nos proporcionando uns “15” dias de descanso. Pra ficar em casa, descansando, pensando. Esse é o momento perfeito pra refletir. Pense comigo:

Se eu perder tudo que tenho lá de fora (rotina, espaço físico de trabalho, passeios, viagens…), eu ainda sou feliz? Olhe para as finanças, se eu ficar um tempinho sem receber um dinheiro, sou seguro financeiramente? Se eu tiver que ficar sozinho, vou me divertir? Quem eu sou? Quem estou sendo? Eu amo a vida que estou criando? Estou agora aonde eu quero estar agora? Estou perto/longe da minha família e de quem importa pra mim? O que posso fazer pra me sentir mais perto? Se eu só tiver eu mesmo pra cuidar de mim, consigo? Dou conta? Eu gosto da minha rotina? Os eventos que eu tinha planejado para as próximas semanas, eles são legais? Estou aliviada/triste com o cancelamento desses eventos? Eles eram necessários? O que eu gosto de fazer no meu tempo livre? O que eu vou fazer no meu tempo livre agora? Se só tiver eu & eu sobrando, é suficiente pra mim? Quem eu quero me tornar?

Eu sou saudável? Esse é o momento de cada um fazer a sua parte, a resposta está dentro de nós. O vírus é invisível, ainda não tem vacina (e sobre ela, fica a reflexão pra depois). Porque nós somos a cura. A cura tá dentro de cada um de nós. Eu sou saudável? Percebo os alimentos que eu como? Como está minha imunidade? Como aumentá-la? Como aumentar minha auto-confiança? Já diziam eles, auto-confiança é tudo.

Para de botar a culpa lá fora, nos outros, de se justificar dizendo que “eu não tenho medo de pegar o vírus, só me preocupo com os mais idosos”. Aham, tá. Então por que não tá falando da perspectiva de quem realmente se preocupa com os mais velhos? Porque se for isso mesmo, então vamos pensar em como protegê-los de verdade, fornecer comida e cuidados médicos especiais. Eles que importam nesse momento, em relação ao corona. Você importa o tempo todo, fica tranquilo.

Obrigada universo por nos proporcionar esse momento de movimento. Tem muuita energia disponível por aí, e que nós saibamos como usá-la da melhor forma possível. À nosso favor. Que percebamos o quão interconectado é o mundo, o quão cada um depende de cada um. Refugiados, entrem, fiquem à vontade. Deixa eu cuidar de ti até sua casa ser reformada. Somos todos um só.

Do pó viemos e ao pó retornamos. Somos todos um. Somos todos um só.

E deixa a luz do sol entrar!

Abra a janela, e deixa aquela luz natural iluminar o ambiente.

Se acomode, sente-se, levante-se. Respire. Leia devagar. Não espere encontrar razão por aqui.

Esse é um espaço da mais alta expressão de uma alma, em que o objetivo é gerar reflexão e, principalmente, olhar pra dentro. Gerar desconforto. Palavras soltas. É dar sentido pro sem sentido, através das energias transmitidas em cada post.

Fique à vontade para descordar, criticar. Esse é o objetivo: trazer uma nova perspectiva. Perspectiva. Olhar diferente. Feel the journey. Feel it.

Porém, eu tenho um pedido a fazer. Sempre que gerar desconforto, em qualquer palavra, sinta-o. E reflita sobre ele. Pense. Por que isso me incomoda? No que eu discordo? Por que eu não enxergo dessa maneira? O que me faz ser quem eu sou?

O que me faz ser quem eu sou? Eu sou mesmo o que eu represento? Quem eu quero ser?

Bebete, ‘vambora’!

O segrego tá na jornada.

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