Nota baixa no boletim

*Vamos lá… iiiinspiiiirooouuu…. e reeesss…já pirou.*

Poffttt (som de alguém jogando algo pesado no chão)

“EU NÃO SEI PORQUE AINDA VENHO NESSA TERAPIA!!! Parece coisa de louco isso aqui. Tô pagando pra tu resolver meus problema pô! Em vez disso tu tá me mandando respirar? Porra, Jones!”

“Por quê você está se sentido com raiva?”

“Sei lá, tu que tem que me dizer. Eu já venho aqui há 12 anos, tu sabe todos os detalhes da minha vida. Me diz o que tá acontecendo comigo!”

“O que você acha que está acontecendo com você?”

“Cara. Eu não quero nem saber o que tá acontecendo comigo. Eu só quero que isso pare. Que essa coisa horrível que eu sinto O TEMPO TODO suma, e que eu consiga tomar um breja de boa sem me preocupar com nada.”

“O que é essa coisa horrível que você sente?”

“Porra Jones, não sei irmão. É uma parada pesada, tá ligado? Começou quando entrei na facul de contabilidade, e desde então essa porra não me larga mais. Eu consigo viver de boas, pá, mas se eu paro pra pensar a minha mente me tortura. É culpa, tá ligado. Raiva. Ódio.

Quando eu vou pro Jiu, parece que nada mais importa. Me sinto numa paz, mano. O tempo voa, eu me divirto com a galera, ensinando a molecada a dar uns golpe maneiro. Eu amo essa porra, velho. Sinto que eu sou bom no que tô fazendo ali, sabe?

Esses dias ganhei um prêmio de professor revelação de um campeonato brasileiro. Eu trabalho voluntário com crianças carentes, tá ligado? A meninada se amarra, eu me divirto, e no fim a aula acaba sendo top!

Mas quando eu vou pro trampo tudo muda, cara. Me sinto um bosta, fazendo coisas bosta, pra ver um dinheirinho meio bosta cair na conta no final de mês.

Eu não quero mais isso, mano. Cansei dessa porra! Não sou feliz no trampo.”

“E o que você vai fazer em relação a isso?”

“Eu? Ué, nada né. Eu tô tentando resolver um problema agora, que é esse sentimento maldito de tristeza dentro de mim. Não tenho tempo pra sair da contabilidade e viver a vida dos sonhos trabalhando com o que eu amo.”

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No dicionário, problema é:
1. assunto controverso, que pode ser objeto de pesquisas científicas ou discussões acadêmicas.
2. questão social que traz transtornos e que exige grande esforço e determinação para ser solucionado.

Assunto controverso… questões sociais que trazem transtornos. Transtorno de rota? Ou seria questões controversas sobre assuntos sociais (?)

Quando estamos na escola, o professor mede o resultado de uma aluno de acordo com a sua capacidade de resolver problemas ou questões em uma prova. Quanto mais perguntas o aluno conseguir responder, maior a sua nota.

Não que eu seja muito a favor desse sistema de provas, mas no final ele acaba sendo uma mímica da natureza de ser um ser humano.

E atire a primeira pedra o adulto que não continua tirando nota baixa em várias provas ao longo da vida. Eu ouvi todos nós?

Tô vendo até meu boletim escolar de 2021:

*capacidade de focar na solução de (insira um desafio específico aqui): nota 0.

Mas a verdade é que encontrar a solução é simples, basta a gente se estudar. Tudo tem resposta, se fizermos as perguntas certas (ou começarmos com uma pergunta pelos menos), e nos esforçarmos pra respondê-las. E aceitar as respostas.

E você, o que vai fazer em relação a isso?

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Foto: Queenstown, Nova Zelândia.

Dois meses em solitária

Dia 15 de março de 2020. Estávamos há um dia do evento que havíamos preparado nos últimos meses, uma simulação de Comitês da ONU. Em paralelo, a escrita da tese de mestrado e um estágio em um escritório internacional já nomeado pro Prêmio Nobel da Paz.

Murmurinhos. “Será que a gente cancela?” / “Eu acho que não, não vai chegar aqui” / “Cancela sim, é mais garantido”. O dia seguinte amanheceu com uma mensagem da coordenadora dizendo que o evento havia sido cancelado. Adiado, até, sabe-se lá quando.

Primeiro dia de quarentena. Sozinha, em países de distância do meu país. O dia em que o Abre a Janela nasceu, primeiro dia de uma grande mudança. A felicidade em poder descansar, em criar um blog, respirar, acordar mais tarde.

Primeiro dia de quarentena. Primeiro dia do quasi-apocalipse, supermercado lotado, pessoas em frenesi. Estava agora proibido se encontrar com amigos, ficar em parques, correr na rua. A regra então era ficar sozinho.

Foram tempos loucos. No começo, não deu nem pra sentir a quarentena rolando. Dias se resumiam a escrever a tese, fazer o almoço, estagiar, correr, fazer a janta. Inclusive final de semana. A vida em um mundo paralelo e unapocalíptico.

Isolamento social? Foram dois meses de quarentena a sós, longe de qualquer ser vivo. Sozinha, eu tinha 19m² de hectare e uma varandinha inóspita no meio do frio neerlandês. Vivendo um sonho, eu nem enxergava os dias passarem. Não sentia a falta de nada, não queria falar com ninguém. Meu único objetivo era fazer o que eu tinha que fazer e não me deixar chegar a exaustão. Foi quasi-burnout.

Dois meses sem falar com ninguém pessoalmente. Sabe o que é isso?

Uma experiência maluca, uma oportunidade de crescimento e evolução. Não que eu recomenda, mas, se eu fosse médica, prescreveria.

Ter foco deixa a gente anestesiado. Mergulhei em um processo de estudo sobre desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, me joguei nas águas do meu oceano sem pressa pra voltar à superfície. Mesmo durante o burnout, o isolamento social trouxe uma paz mental jamais sentida antes. Não me senti sozinha em nenhum momento durante esse período.

Até sentir tudo de uma vez.

Ficar dois meses sem contato humano -nenhum- foi um processo destrutivo e construtivo ao mesmo tempo. Me levou a um estado de autossuficiência que me fez duvidar da necessidade de interação social. Eu me dei uma festa de aniversário em que eu fui a única convidada e foi uma das melhores festas que eu já fui, sério.

Sinto o impacto desse retiro espiritual moderno até hoje, e sei que ainda estou me recuperando. Procurando um equilíbrio entre o meu eu solitário e o meu eu social. Entre o meu impulso instintivo de mergulhar no meu mundo e minha resistência/vontade de sair pro universo social. É tão confortável aqui dentro, sabe. Zona de conforto?

Lembro da primeira vez que me reuni com amigos depois desses dois meses. Foi caótico e um pouco desesperador lidar com tanta energia diferente. De repente, eu não sabia mais estar em um ambiente barulhento e normal. Esse dia foi phoda.

Acho que hoje eu entendo quem resolve se demitir do emprego, jogar a família pro alto e correr pra um monastério nas montanhas do Himalaia. De certa forma, entendo o Aubrey Marcus ter ficado uma semana sozinho em um quarto escuro, ou o McConaughey ter cogitado virar monge.

Cada dose de solitude são 50ml de autoconhecimento. Cuidado para não beber muito, mas uma tacinha de vinho por dia não faz mal a ninguém. Quem consegue tomar a garrafa inteira de uma vez?

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Foto: Normandia, França.