Entrevista de Emprego

“Então, Cleiton, conte-me mais sobre você.”

“Hmm, o que o senhor quer saber?”

“Quem é você?”

“Como assim quem sou eu?”

“Ué, qual seu nome? Idade, sexo, endereço. Hobby! Tem hobbies? O que você faz no tempo livre? Na verdade eu não ligo, por que você se inscreveu nessa vaga?”

Porque eu tenho 20 e poucos anos sem dinheiro falido pobre vivendo à custas de vento querendo ter um padrão de vida do chefe dessa empresa que é filho do dono da empresa e que saiu da fralda ganhando 20 mil reais por semana?

“Então, Cleiton, conte-me mais sobre você. Quem é você e por que se inscreveu pra essa vaga?”

“Tirando o fato de que eu não faço ideia de quem eu sou ou do que eu gosto e encontrei essa vaga no google com o título “salário promissor”, eu amo os valores dessa empresa e me identifico muito com a vaga. Sou trabalhador, homem honesto, dedicado e acredito ser o candidato ideal para o que o senhor tá procurando.”

“Cleiton, queremos saber se o seu perfil está alinhado com os planos da empresa e se há realmente um futuro pra você aqui dentro. Aonde você se vê daqui 10 anos?”

Olha moço, o senhor tá achando que eu sou o quê? Mãe Dináh? O brasileiro não tem um dia de paz e você tá me perguntando aonde eu me vejo daqui 10 anos? No fogo do inferno se tu me fizer pensar sobre isso.

“Ah! Daqui 10 anos eu me vejo trabalhando na ONU como Agente de Paz no Uzbequistão, ou sendo CEO de uma grande empresa, como o Facebook, sabe?”

“Legal, Cleiton! Parece estar alinhado com as pessoas que estamos procurando mesmo. Só tenho uma dúvida: aqui na sua Carta de Motivação, quando se inscreveu na vaga, você disse que estava ansioso para trabalhar como contador, mas nós somos um escritório de advocacia. Queria entender, houve algum engano?”

PQP. Que merda! Eu sabia que não deveria ter usado a mesma carta de motivação pras 500 vagas aleatórias que encontrei na internet. Como fui achar que mudar só o nome da empresa iria ser suficiente? Estagiário FDP que não tinha nada pra fazer e leu minha carta com calma. E ainda avisou o chefe!!

“Nossa, senhor, me desculpa. Deve ter escrito por engano. A verdade é que estou extremamente ansioso para trabalhar 12 horas por dia como advogado júnior ganhando 1.000 reais sem vale transporte nem vale alimentação assinando petição e levando cafézinho pro senhor! Quando eu começo?”


Quem somos nós e porque nos inscrevemos em vagas? Quem sou eu?

Eu achava que era A, mas agora acho que sou B. Queria ser A, tentei, mas algo me disse que eu queria ser B. Tentei ser A por um tempo (e fui), mas não me imaginava sendo A daqui 10 anos.

Daqui 10 anos, ser B parece bem mais legal. Eu sempre quis ser B, será que vou esperar 10 anos pra me torna-lo?

Nada impede que a crise venha depois, mas, na maioria das vezes, a crise dos 20 e poucos anos – que começa nos 17 – é doida e sorrateira. Por um momento, a gente consegue ignorar e fingir que nada tá acontecendo, mas de repente ela vem que nem um furacão derrubando tudo que tá na frente: que que eu quero fazer da vida?

Independente da renda financeira, cor de pele, ou gênero. mesmo se em diferentes nuances e às vezes com tópicos ou temas diferentes, todo jovem adulto enfrenta internamente essa crise.

Eu acho que só há uma maneira de enfrentá-la: Encarando-a. Aceite, viva, sinta, se questione, descubra!

Antes da pergunta brotar, a gente começa a perceber a infinidade de opções que se existe pra fazer da vida. É tanto, mas tanto trabalho diferente e maluco que existe por aí, que a gente fica mais perdido que barata tonta. Mas e se eu NÃO quiser fazer nada da vida?

É louco também dar um shift e mudar de vida totalmente. Quanto mais cedo melhor, mas nada impede que isso aconteça quando eu tiver 56 anos.

Na-da impede.

Não vou nem continuar pra não te deixar doido. Mas isso é coisa de se ficar maluco. Provavelmente terão mais textos como esse, mas por enquanto vamos todos compartilhar a dor do Cleiton de passar por mais um entrevista de emprego com a pergunta: por que se inscreveu pra essa vaga?

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Foto: Ghent, Bélgica.

O burnout não fica em quarentena

Mulher sempre acha que é a Mulher-Maravilha, né? Eu sempre achei. Temos até o mesmo nome! Eu sempre me identifiquei muito com a Mulher-Maravilha porque assim, temos o mesmo nome, e ela é uma maravilha. Mas será que ela também opera em luta-fuga?

Lava, seca e passa. Cuida das plantas, faz o almoço, lava o box do banheiro, medita. Pinta, costura e pratica yoga três vezes ao dia virada pro sol em um ângulo de 38 graus perpendicular à lua. Por quê será que associamos essa maravilha de mulher com uma mulher maravilhosa?

Tem aquela clássica história pra boi dormir de que mulher consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo mas homem não. Homem só consegue fazer uma. Ele não consegue, por exemplo, recolher o prato que comeu ao mesmo tempo que faz a digestão, porque é do homem só conseguir fazer uma coisa ao mesmo tempo. Ainda bem que a mulher consegue cozinhar, servir o prato, mastigar, engolir, e ainda lavar a louça ao mesmo tempo, porque se dependesse do homem, tão limitado, coitado, ficaria complicado…

Lá vem ela trazendo as boas novas. Tá grávida de cinco meses, semana que vem está partindo para uma expedição de escalada do Everest, começou a dieta paleo e, de acordo com a nutri, a prática de jejum intermitente tem sido maravilhosa para aumentar os níveis de antioxidantes no sangue e dar a energia necessária para um dia agitado!

A vida tem sido boa demais, diz ela. “Só no trabalho que está um pouco complicado. Meu departamento trocou de chefe, e esse é bem mais rigoroso. Me pediu uma planilha completa para calcular o número de gotas do oceano, que tá me dando um pouco de trabalho. Mas fora isso, tô bem!”

Das oito horas de expediente, duas eu produzo pra valer. As outras seis, eu passo tentando me concentrar para não pensar nas outras mil coisas que eu tenho pra fazer, diz ela. Que quero fazer, que deixei de fazer, que fiz, que pensei em fazer mas não fiz.

Será que a Mulher-Maravilha, minha xará, também opera em luta-fuga que nem eu? Que nem você?

Graças à Deus já to bem mais avançada nessa caminhada ao reparo, descanso e digestão. Já operei muito mais no modo sobrevivência, mas hoje a minha busca é pela vivência. Não faz sentido esse modo de ver a vida de que trabalho é tudo nesse mundo. Trabalho é sim tudo nesse mundo, é sim algo lindo e que deve ser amado, mas ele não é tudo nesse mundo! Trabalho é incrível e traz propósito de vida, mas ele só faz parte do meu mundo.

Dá um google em “karoshi” e depois volta pra gente conversar.

E aí, vai me dizer que karoshi tira férias? Que faz escolha de gênero? Idade? Profissão? Que fica em quarentena? Nem ele nem o burnout.

Hoje eu me peguei em um ciclo autodestrutivo de alta exigência de produção com níveis mais altos ainda de esgotamento. Longe do burnout mas com o pé apontado em direção. E se eu to me sentindo assim, nem imagino como outras pessoas possam se sentir.

Nós, mulheres que se dizem ser a Mulher-Maravilha, a diferentona stress-free, cuidado. Você não quer ser ela. Primeiro que eu nem sei porque a associam com uma faz-tudo super poderosa (alguém aí sabe?), e, segundo, porque presença é o mínimo de respeito que podemos nos dar.

Eu que me perdoe por estar tendo oportunidades absurdamente incríveis neste momento e não estar presente em nenhuma delas. Eu que me perdoe por não estar presente para me enxergar me tornando a mulher dos meus sonhos. Eu que me perdoe por não ter presenciado antes a minha clara exaustão. Mesmo tendo – literalmente – todo o tempo livre (alô, quarentena), nas últimas semanas eu estava ocupada demais para marcar presença naquela nova conquista.

Amanhã o despertador não toca.

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Foto: Florianópolis – Brasil

Lições de Croquete & Sanduíche

Sabe essas agências de trabalho em que a gente se inscreve pra trabalhar em eventos aleatórios? Ou eles ficam com os seus dados e te chamam para “trabalhar recolhendo ingresso no show da Adele nesse sábado” ou, pelo aplicativo, você escolhe o dia que está disponível e se aplica pro evento que pagar mais (infelizmente eu sou do tipo que vai pelo que dura menos tempo).

Pá pum. Vai lá, fica pensando “que que eu tô fazendo aqui”, fica se perguntando porque aquele colega de trabalho tá animadão pra servir croquete durante 6 horas nessa feira de agrônomos holandeses, pega dois ônibus e um trem de volta pra casa, e recebe o pagamento duas sexta-feiras depois no valor de 60 euros.

Na época, no dia da Adele meu chefe sacana me recrutou pra trabalhar e não pude ir (alô dois empregos?). Mas aí teve uma vez muito divertida que fui recolher ingresso em um evento super descolado que até hoje não descobri direito o que era, e outro dia fui paga pra passar maionese no sanduíche de uns universitários enquanto minha colega era paga pra botar o picles e a cebola no pão.

E foi a botada de picles e cebola no pão mais marcante que eu já presenciei. Aquilo mudou minha vida. As três horas de contato que eu tive com essa colega foram inspiradoras. Ela me contou que esse era o único trabalho dela, e como ela amava trabalhar ali. Ela só via perfeição em trabalhar das 9h às 16h em pé servindo os alunos e montando o sanduíche que eles pediam. Ela trabalhava ali há anos – porque queria. Ela sorria o tempo -inteiro-, conversava com todo mundo, e até elogiava o cabelo das alunas que comiam por ali.

Outro dia, eu tava pistola servindo croquete para aqueles agrônomos holandeses. Eu sou muito #teamorgânicos e estava ali alimentando aqueles compradores de pesticida, botando comida na mesinha daqueles homens prestes a comprar um novo trator para jogar agrotóxico na lavoura.

“Dank je wel!”. Que mané “obrigada”, irmãoooo

Mas enquanto eu trabalhava na feira de cara amarrada, sem valorizar na verdade o quanto a Holanda tem um trabalho lindo com seus alimentos, minha “chefe” do dia trabalhava felizona. Ela pegava aquela bandeja hiper pesada cheia de croquete como se fosse uma pluma, e andava pela feira se divertindo e rindo com os convidados.

Ela me contou que a vida dela era essa. Ela trabalhava em qualquer tipo de evento, para qualquer agência, sempre na forma de trabalho informal. A carreira dela era se aplicar para eventos aleatórios, marcar presença no dia, e esperar a grana cair na conta no final da semana. Ela tinha 40 anos, e fazia isso há no mínimo 20.

Não é lindo?

Talvez você não tenha captado, mas o post “Cara, cadê meu carro?” fala, na verdade, sobre diferentes formas de se viver. Existem inúmeras formas de se viver.

Eu não sei se é por causa da cultura que eu venho ou o quê, mas eu admito que pra mim é estranho imaginar não ter uma carreira. Ou ter uma carreira diferente da que eu imagino – profissões formais e overrated, mais do mesmo. Mas é tão inspirador viver experiências “aleatórias”, sair da caixa, conhecer novos olhares, novas vidas, novos objetivos.

Mais inspirador ainda é ver as pessoas (realmente) felizes fazendo tarefas que não é todo dia que eu paro para valorizar. E não é como se elas estivessem ali porque precisam. Elas estão ali porque esse é o instrumento delas, porque elas querem. Não é todo mundo que quer ser o Bill Gates com 20 anos de idade ou se hospedar no Conrad toda férias de verão.

Poderia escrever um livro de tanta coisa aleatória que já vivi. Ainda bem. Que eu viva mais infinitas experiências aleatórias, e que me tragam muita sabedoria. Muitas novas vidas, formas de vida. O meu mais sincero obrigada a essas colegas por me serem e me ensinarem tanto.

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Foto: Jurerê – Brasil