Trava-língua

E de repente eu travei. Tava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Eu estava animada, encantada, apaixonada. E não é por ele não, moço, é por mim sim. Mas aí eu parei e não consegui mais continuar.

Estava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Cansei, sentei no muro e lá me deixei. Tem vezes que a gente começa algo e depois não consegue mais continuar, né? Por quê?

A ideia de voar com os pássaros me parece tão bem. Mês passado eu decidi tentar. Por que não? Peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão e pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar. Ele me disse: “Olha, vai ser difícil. Antes de tudo, você vai ter que realmente querer voar.” Eu falei que isso não era problema, porque eu queria mesmo. Quem não quer esbarrar com um avião enquanto vai no supermercado fazer a comprinha da semana?

Ele disse: “Então tá bem. O primeiro passo pra voar é acreditar na possibilidade do voo. Sente-se aqui e fique duas horas conversando com seus pensamentos, e escute o que eles têm a dizer”.

Mas que absurdo! Eu peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão, pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar e ele me manda ficar sentada encarando meus pensamentos? Eu quero logo é sair voando por aí!

De cara emburrada, sentei. Logo já me dei de cara com o Sr. Medo, que naquele dia estava trabalhando de porteiro pro hotel em que eu tinha feito uma reserva. “Você vai passar a noite aqui?”, disse ele. Eu acenei com a cabeça, e, sem sucesso, tentei fugir da conversa. Mas ele é insistente, e ficou umas duas horas ali trocando uma ideia comigo.

Sabe, eu fui pegando gosto pela coisa. Aquele senhor de testa franzida e barba grisalha a princípio não me agradava – nenhum pouco – mas sua insistência me obrigou a ficar ali parada ouvindo o que ele tinha pra me dizer. E até que acabei gostando da conversa. Sabe o que ele me disse? Que seu nome era Medo porque sua mãe, Coragem, havia o abandonado quando era criança, e seu pai, Persistência, estava tão abatido com a falta de Coragem que resolveu descontar no pobre garoto. E depois fugiu. Uma tragédia!

Mas estava tudo indo tão bem, que decidi aprender a voar. Seu Gavião me disse então que o segundo passo agora era treinar o voo, e persistir. “Ser mestre no básico”, disse ele.

Mas que absurdo! Eu peguei minha escadinha de madeira, corri lá pro sertão, pedi pro Seu Gavião me ensinar a voar, ele me mandou ficar encarando meus pensamentos, conversei com o Sr. Medo, e agora ele me manda treinar e me tornar mestre no básico? E persistir? E se me faltar coragem? Quem vai cuidar do medo?

Estava tudo indo tão bem, e aí eu travei. Estava animada, encantada, apaixonada pela ideia de voar com os pássaros. Mas comecei. E aí percebi que ia levar um tempo até eu esbarrar com um avião no meio do caminho pro supermercado no dia de fazer a comprinha da semana. E aí me apoiei nesse muro pra amarrar meu cadarço e por aqui fiquei.

Ei! Quer saber? Eu acho que a culpa é do Seu Gavião! Ele que não sabe ensinar! Gavião nem voa direito! Se eu resolvi voar, tenho que ter aula de voo, oras bolas. Que mané história de ser mestre no básico. O básico serve pra que?

Eu vou tentar de novo. Vou pegar minha escadinha de madeira, correr pra direção oposta do sertão e pedir pro Seu Avestruz me ensinar a voar. Esse sim vai me dar aulas de voo! O Sr. Medo que converse sozinho. Será que algum dia Persistência vai voltar e perdoar a falta de Coragem?

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Foto: Nazaré – Portugal

Não (re)inventa moda

Eu resolvi que eu quero conseguir pintar uma tela a óleo com o dedinho esquerdo do meu pé direito. É isso mesmo. Minha meta agora é fazer com que o dedinho esquerdo do meu pé direito segure alguns pincéis e faça uma pintura. E esse pintura tem que ser igual ao “Sol Nascente”, do Monet. Aceito nada menos que isso.

Tá, pra isso eu tenho então que ensinar o meu dedinho esquerdo a segurar um pincel. E tenho que ensinar o meu pé direito que agora vai ter um dedinho ali que vai virar pintor, então ele que se resolva em como vai deixar de sustentar o meu corpo pra virar suporte de artista.

Péra, o que? Isso não faz sentido. Dedinhos de pé não são como dedos da mão. E pé não é mão. E um dedo sozinho não segura pincel…

Quero nem saber. Eu vou ser o que eu quero ser. Já dizia Charlie Brown que o impossível é só questão de opinião. Quem sou eu pra contrariá-lo???

Eu vou é me reinventar. Vou sair daqui agora, pegar minha tobata, e partir pras Bahamas em busca da neve. Ah, a neve… tão linda e branquinha. Parecida com a areia da praia. Neve e praia são quase a mesma coisa né?

Cê ta inventando história, dona moça. Ficou é maluca. Parece aquelas minas que viram CEO de empresa: deu a louca na dona mariquinha.

Invento. Me reinvento. Não sou a mesma todo dia. Sou melhor a cada dia. O que eu gostava ontem talvez já não goste mais hoje. O que eu gostava ontem talvez hoje eu goste ainda mais. Descobri que gosto de tanta coisa… Tanta. Coisa. Será que consigo fazer tudo? Será que posso ser tudo? O que mais eu quero ser? Fazer?

Cozinhar, pintar, passar roupa. Passar roupa? – Eu sou única, mon amour.

Que Deus me abençoe e me faça gostar de cada vez mais coisas. E que eu aprenda a desgostar também. A desapegar. Se a fase já passou, então já Elvis. Se a fase tá começando, ENTÃO (NÃO) ME SEGURA

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Foto: Lisboa – Portugal

A minha casa é o meu laboratório.

Cada vez mais eu percebo, abismada, o quanto as pessoas não conseguem ficar em casa. Poderia passar horas divagando aqui sobre a minha jornada com a minha casa e como eu a amo, mas esse não é o ponto agora. O ponto agora é que as pessoas não conseguem mais ficar em casa.

Elas têm medo. Elas morrem de medo de ter que passar algumas horas em casa. É sério, parece brincadeira, mas minha pesquisa empírica – vulgo, prestar atenção no que as pessoas estão falando – demonstra de forma clara o quanto as pessoas têm medo de ficar em casa. Elas nem estão prestando atenção no que querem dizer quando falam o que falam, mas eu estou.

“Eu prefiro ir pra qualquer lugar do que ficar uma noite a mais em casa”. “Tá, você ficou em casa todo esse tempo?”. “Mas, o que você faz pra se divertir?”. Simples frases que revelam muito. Talvez aqui jogadas não pareça, mas da próxima vez que você ouví-las, preste atenção. No contexto. O contexto revela muito.

E não me leve à mal, eu não julgo. E não julgo mesmo, eu já fui assim. Já fui muito assim. Dói ter que ficar em casa quando ainda não temos um carinho por ela, quando ainda não estabelecemos uma conexão profunda com nós mesmos.

Por favor, não leve esse texto pro lado racional da coisa. Eu sei que lendo não parece fazer sentido. Então só sinta. Deixa a energia das minhas palavras te tocar, e não tente entender de forma lógica. Eu não estou nem falando muito da casa como lugar físico. Tô indo além. Então só sinta.

Precisamos aprender a ficar em casa. A se divertir em casa. A se descobrir em casa. O bem mais valioso que existe nesse universo é o tempo passado em casa. Vivido em casa. Não adianta passar tempo em casa mexendo no celular, ou só vendo televisão. Viva a sua casa. Se descubra em casa. É bem ali mesmo que você vai descobrir quem você é. Quem você quer ser. E é ali mesmo que você vai começar a se tornar essa pessoa que você quer ser.

Por favor, viva um tempo em casa. Pegue um alimento na mão e sinta seu cheiro. Sua textura. Qual a cor? Qual o sabor? O que te deu vontade de cozinhar com ele? Hoje acaba em pizza.

Peraí que eu vou limpar o banheiro. Eita, o que é isso aqui? Que objeto é esse que eu nem lembrava que eu tinha? Nossa, como é lindo!

Quer saber, eu vou arrumar meu guarda-roupa. Tem muita cois… meu Deus olha essa blusa! Eu nem lembrava que eu tinha ela! Caramba, eu usei ela naquela viagem incrível pros andes suíços na tailândia. Nossa, que viagem incrível que foi. Que saudade. Qual será minha próxima viagem? Bem que eu podia ir passar um tempo esquiando no Havaí né? Ninguém nunca ouviu falar do Butão, é pra lá que eu vou!

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Foto: Florianópolis – Brasil